A relação das críticas de Hume aos argumentos teológicos e sua relação com críticas às vias de Tomás de Aquino
Introdução:
A busca por fundamentos racionais para a existência de Deus tem sido um motor constante na filosofia. Dentre as diversas abordagens, as chamadas "vias" de Tomás de Aquino, em sua monumental "Suma Teológica", representam um marco influente na tradição teológica e filosófica ocidental. Suas cinco provas da existência de Deus, baseadas na observação do mundo natural e em princípios metafísicos, buscaram estabelecer a necessidade de um Ser Supremo como explicação última da realidade. No entanto, séculos depois, o empirismo radical de David Hume lançou um desafio profundo e duradouro a essas e outras formas de teologia natural. Este ensaio se concentrará em analisar as críticas filosóficas de Hume, particularmente no que concerne à sua objeção à singularidade do universo, e como essa objeção impacta diretamente as duas primeiras vias de Aquino: o argumento do primeiro motor imóvel e o argumento da causa eficiente. Ao justapor o raciocínio dedutivo de Aquino com o ceticismo epistemológico de Hume, buscaremos evidenciar as fragilidades inerentes à tentativa de extrapolar princípios observados dentro do universo para explicar a sua própria origem e necessidade.
Primeira Via: Argumento do Primeiro Motor Imóvel
A Via de Aquino:
Percebemos que algumas coisas no mundo estão em movimento (mudança).
Tudo o que se move é movido por outro; nada se move por si mesmo.
Se a cadeia de motores regredisse ao infinito, não haveria um primeiro motor, e consequentemente, nenhum movimento subsequente.
Portanto, deve existir um primeiro motor imóvel, que não é movido por nada mais, ao qual todos entendem que é Deus.
A Crítica de Hume:
A crítica de Hume sobre a singularidade e a unicidade do universo questiona a aplicabilidade do conceito de "ser movido por outro" ao próprio universo. Toda a nossa experiência de movimento e de objetos sendo movidos ocorre dentro dos limites do nosso universo. Não temos experiência de universos sendo "postos em movimento". Aplicar a necessidade de um "primeiro motor" ao universo como um todo, com base em nossa experiência intramundana, é uma extrapolação problemática. O universo pode ter uma natureza fundamentalmente diferente que não exige um motor externo da mesma forma que os objetos dentro dele. A inferência de um "primeiro motor imóvel" torna-se uma especulação sem base empírica direta, dada a singularidade do cosmos.
Segunda Via: Argumento da Causa Eficiente
A Via de Aquino:
Percebemos que no mundo existe uma ordem de causas eficientes. Nada pode ser causa de si mesmo.
Se a cadeia de causas eficientes regredisse ao infinito, não haveria uma primeira causa, e consequentemente, nenhuma causa subsequente.
Portanto, deve existir uma primeira causa eficiente, que não é causada por nada mais, à qual todos chamam Deus.
A Crítica de Hume:
A crítica de Hume sobre a singularidade e a unicidade do universo também se aplica à segunda via. Inferir uma causa para o universo como um todo com base em nossa experiência de causas e efeitos dentro do universo é problemático. Não observamos a gênese de múltiplos universos para poder generalizar sobre a necessidade de uma causa para o universo singular que conhecemos. Aplicar categorias de causalidade que derivam de nossa experiência de eventos intramundanos a um evento supostamente transcendental como a criação do universo é uma extrapolação injustificada. O universo, sendo único, pode ter propriedades causais intrínsecas ou uma forma de existência que não requer uma causa externa da maneira como os objetos finitos dentro dele requerem. Hume argumentaria que a segunda via comete um erro de composição e de generalização apressada a partir de uma amostra de tamanho um.
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