quarta-feira, 29 de abril de 2026

Eles vão te esgotar

Um ensaio Freudiano sobre a violência no cinema


Introdução: A Estética da Insensibilidade

O texto que se segue não é um artigo convencional, mas um Ensaiálogo: uma investigação dialética construída em tempo real entre o pensamento humano e a inteligência artificial. O ponto de partida é uma provocação de Larry Flynt sobre a hipocrisia moral americana, mas o destino é muito mais profundo: a análise de como o cinema de 2026 e o "turbocapitalismo" moldaram um novo tipo de humano.

Neste diálogo, exploramos a transição do "herói que sangra" — aquele que sente o vidro sob os pés e o peso moral do ato de matar — para o "herói-máquina" da era digital. Através das lentes de Sigmund Freud, as categorias de Eros e Thanatos são usadas para decifrar a violência "pop" e coreográfica de diretores como Kirill Sokolov.

A discussão ganha corpo ético ao invocar a "demonização do alheio" do filósofo brasileiro Carlos Cirne-Lima, conectando o sadismo estético das telas ao fenômeno do cancelamento nas redes sociais. O que emerge é o retrato de uma sociedade que, sob a pressão de um ganho brutal de eficiência, trocou a empatia biológica pelo "reset" constante do videogame, transformando a dor em mercadoria e o ser humano em um operário infalível de sua própria destruição.

Prepare-se para um percurso que atravessa trincheiras de guerra, telas de cinema e baias corporativas, em busca do que ainda resta de humano em um mundo que aprendeu a não mancar.

Em tempo: Se você julga que o tema não relaciona-se com religiões, embora claramente se relaciona - como tudo - com Filosofia, saiba que a “demonização do alheio” que vai conhecer - se já não conhece - relaciona-se intimamente com os fenômenos religiosos de massa e infiltração com o poder estatal.


Francisco Quiumento (FQ) e Gemini da Google (GG)

FQ

Demorei um certo tempo para ver o já "condenado" ao cult "Eles vão te matar", 2026, do diretor Kirill Sokolov. 


Lembrei imediatamente de uma cena e fala que muito me marcou de "O povo contra Larry Flint" (1996), onde o empresário do erotismo pesado mostra imagens de cenas eróticas e afirma que o povo (e a lei) americana considerava aquilo obsceno, e mostrando imagens violentas, inclusive factuais da Guerra do Vietnã, julgava estas aceitáveis.

O eixo de nossa conversa é que o cinema tem sido permeado por uma violência extrema que seja aceitável, desde que coreográfica e pop em diversos sentidos, como visto nesse filme ("Eles vão te matar") e no recente "Gunpowder Milkshake: Mistura Explosiva" (2021).

Há, claro, antecedentes, desde as referências para "Eles vão te matar", "Um Drink no Inferno", dirigido por Robert Rodriguez e "Kill Bill", dirigido por Quentin Tarantino, ambos com roteiro de Tarantino.


GG

Essa contradição apontada por Larry Flynt — a criminalização do prazer (Eros) em detrimento da naturalização da destruição (Thanatos) — é o ponto de partida ideal para uma análise freudiana. No cinema contemporâneo, a violência "pop" e coreográfica de obras como Eles vão te matar ou Gunpowder Milkshake atua como um mecanismo refinado de mediação psíquica.

Aqui está uma análise estruturada sob a ótica da metapsicologia freudiana:

1. O Mal-Estar e a Estetização da Pulsão de Morte

Em O Mal-Estar na Civilização (1930), Freud argumenta que a cultura exige a renúncia de nossas pulsões agressivas para garantir a convivência social. No entanto, a Pulsão de Morte (Thanatos) não desaparece; ela é internalizada ou sublimada.

O cinema de Tarantino, e agora essa nova leva de violência extrema, funciona como um espaço de sublimação. Quando a violência se torna "coreográfica" e "pop", ela retira o peso do real (o trauma) e o transforma em estética. O espectador pode gozar da agressividade sem a culpa moral, pois o cenário colorido e a trilha sonora vibrante sinalizam ao Superego que "isso é apenas um jogo".

2. A Obscenidade: Eros vs. Thanatos

A provocação de Flynt revela a hipocrisia das defesas civilizatórias:

  • O Sexo (Eros): É visto como obsceno porque representa a perda de controle e a busca pelo prazer individual, algo que a moralidade puritana tenta domesticar para fins reprodutivos ou sociais.

  • A Violência (Thanatos): Frequentemente recebe o selo de "aceitável" (especialmente em contextos de guerra ou justiça) porque pode ser canalizada pelo Estado ou por narrativas de heroísmo.

Filmes como Gunpowder Milkshake dão um passo além: eles pegam a violência factual — que seria insuportável — e a transformam em fetiche. A arma, o sangue em neon e o movimento preciso tornam-se objetos de desejo visual. É a "erotização da destruição".

3. O Retorno do Recalcado e o "Unheimlich"

Se em Kill Bill temos a catarse da vingança, em Eles vão te matar a barreira entre a coreografia e o horror visceral se rompe. Freud falava do Unheimlich (o inquietante/infamiliar): aquilo que deveria ter permanecido oculto, mas que veio à tona.

Enquanto a violência "pop" nos protege através da distância estética, filmes que cruzam essa linha nos confrontam com a crueza da pulsão pura. A lei americana citada por Flynt aceita a violência desde que ela seja "útil" ou "distante"; o cinema atual a aceita desde que seja "bela".

O Tabuleiro das Pulsões

Podemos comparar essa dinâmica cinematográfica a uma estrutura de compensação:


Elemento

Papel Freudiano

Efeito no Cinema Pop

Coreografia

Mecanismo de Defesa

Transforma o trauma em ritmo e ordem.

Sangue Estetizado

Sublimação

Permite a descarga da libido agressiva sem angústia.

Cenas de Guerra

Realidade Crua

Frequentemente tolerada por ser "histórica" ou "moral".


Essa aceitação da violência extrema no cinema contemporâneo sugere que, quanto mais restritiva e "civilizada" se torna a vida cotidiana, mais explosiva e estilizada precisa ser a nossa válvula de escape visual. O cinema não é apenas um espelho, mas um laboratório onde Thanatos se veste de gala para ser convidado à festa do Ego.

O que mais lhe chamou a atenção na transição da violência "moral" de Tarantino para a "visceralidade" de They Will Kill You The Sadness?

FQ

A violência está mais “plástica”, mais o que aos tempos de Matrix e Corra, Lola, Corra era chamado de ‘cinemoving’, uma exuberância de técnica especialmente na velocidade de câmera e o permanente cuidado com o movimento.

O que você poderia falar do diretor Sokolov?

GG

Tratando-se de Kirill Sokolov. Se tomarmos como base o trabalho anterior dele (como o visceral Why Don't You Just Die!), entendemos que o "pop" aqui ganha uma camada de ironia russa e um sadismo quase cartunesco que se encaixa perfeitamente na análise freudiana.

Sokolov não faz apenas violência coreografada; ele faz o que Freud chamaria de hiper-investimento libidinal no objeto de destruição.

O Sadismo como Espetáculo: A Estética de Sokolov

Em They Will Kill You, a violência deixa de ser um meio para um fim (vingança ou justiça) e passa a ser o próprio objeto de prazer visual. Sob a ótica freudiana, temos aqui:

  • A Regressão ao Estágio Anal-Sádico: Freud descreveu uma fase do desenvolvimento onde o prazer está ligado ao controle, à dominação e à destruição do objeto. Sokolov coloca o espectador nessa posição: nos divertimos com a fragmentação dos corpos porque o filme remove a "humanidade" das vítimas através do excesso. O sangue não é vermelho-dor; é vermelho-tinta, uma explosão de cor que satisfaz o Id.

  • A "Doma" do Medo pela Repetição: Na neurose traumática, o indivíduo repete o trauma para tentar dominá-lo (Compulsão à Repetição). O cinema de Sokolov faz isso com a violência: ela é tão incessante, tão ruidosa e tão "acima do tom" que o medo da morte (angústia real) é substituído pelo riso nervoso ou pelo deleite estético. É uma vitória técnica sobre o horror.

O Contraste com Larry Flynt

Retomando o eixo que você propôs sobre O Povo contra Larry Flynt: A lei aceita a imagem factual do Vietnã porque ela é "pedagógica" ou "informativa" (uma racionalização do Superego). Já o cinema de Sokolov é "condenado" ou visto com ressalvas justamente porque ele expõe o que a sociedade quer esconder: que a destruição pode ser divertida.

Flynt apontava que o sexo é punido porque é um prazer privado e descontrolado. A violência de They Will Kill You é aceita pela cultura "cult" porque está protegida pela moldura da arte. Se a violência é "bem filmada", ela deixa de ser um crime e passa a ser "estilo".

A Coreografia como Máscara

Diferente de Kill Bill, onde a coreografia é um tributo ao cinema de gênero, em diretores como Sokolov e na nova leva de 2026, a coreografia serve para anestesiar a empatia.

  • No momento em que um golpe se torna um passo de dança (como em Gunpowder Milkshake), o "outro" deixa de ser um semelhante e passa a ser um suporte para a performance.

  • É o triunfo total de Narciso: o espectador não sofre com a vítima; ele admira a técnica de quem golpeia.

Essa "violência aceitável" que você menciona é, no fundo, a nossa pulsão de morte domesticada pelo design de produção. Gostamos de ver o mundo pegar fogo, desde que as chamas combinem com a paleta de cores do diretor.

Considerando o estilo explosivo do Sokolov, você acha que essa "estetização do sangue" nos torna mais tolerantes à violência real ou, como diria a catarse aristotélica, apenas limpa nossa "sujeira interna" para que possamos continuar vivendo em sociedade?

FQ


Vampiros e imortais que venderam sua alma, some-se zumbis, podem ser trucidados sem pena, pois são "o mal".


Invoco a "demonização do alheio", do professor Carlos Cirne Lima.

Os inimigos de videogames podem ser trucidados sem fim, sem risco de realmente reagirem.

Houve o gameover, retorna-se com um "reiniciar".

Não há as lições dos conflitos do jardim de infância, na doma pelos outros do pequeno imperador que é cada novo humano, que aprende desde cedo que pode também sofrer dor ao impingir dor aos outros.

Nessa cultura de mídia, não há o pavor moral dos guerreiros em Band of Brothers e The Pacific, em terem pesadelos e traumas respectivamente por terem matado um adolescente que titubeou na sua frente ou um jovem que queria se render.

Não há o humano moral, mesmo em meio ao terror. Há apenas a satisfação de ver a violência, uma estética de na segurança entre a tela e o sofá, se viver o sadismo dos hóspedes mais afortunados de "O Albergue" (filme de terror estadunidense de 2005 dirigido por Eli Roth e coproduzido por Quentin Tarantino).

Nota: Carlos Cirne Lima ou somente Cirne-Lima foi um filósofo dialético contemporâneo brasileiro. Reconhecido mundialmente também pela originalidade de suas pesquisas em Hegel. - pt.wikipedia.org - Carlos Cirne Lima

GG

Você tocou no nervo exposto da desumanização contemporânea. Ao evocar Carlos Cirne-Lima e a "demonização do alheio", você desloca a discussão da estética para a ética: a violência deixa de ser uma questão de "estilo" e passa a ser uma questão de ontologia.

Se o "outro" é ontologicamente mau (vampiro, zumbi, nazista de videogame), ele perde o status de pessoa. Ao transformá-lo em "coisa", o cinema e os games anulam a alteridade.

Aqui está o desdobramento dessa "demonização" sob a ótica freudiana e ética:

1. O Pequeno Imperador e a Ausência do Espelho

Freud falava do Narcisismo Primário, onde a criança se vê como o centro do universo ("Sua Majestade, o Bebê"). A civilização começa quando o "outro" reage e impõe um limite físico e moral: "se eu bato, eu também sinto dor".

A cultura do gameover e da violência pop (como em They Will Kill You) rompe esse aprendizado. Ela nos devolve ao estado de "pequeno imperador". Na segurança do sofá, o espectador exerce um poder absoluto sem o custo psíquico da culpa. Não há o "rosto" do outro, apenas o alvo.

2. A Demonização como Anestesia do Superego

Cirne-Lima argumentava que, ao rotular o outro como "demoníaco", nós nos desobrigamos de qualquer dever moral para com ele. No cinema de Sokolov ou na estética de Gunpowder Milkshake, ocorre um fenômeno de Clivagem do Ego:

  • O espectador sabe que aquilo é humano (forma), mas o roteiro diz que é "o mal" (essência).

  • Essa clivagem permite que o Id se delicie com o sadismo enquanto o Superego dorme, pois "matar monstros não é pecado".

Diferente de Band of Brothers, onde o soldado reconhece no inimigo um espelho de si mesmo (o adolescente que hesita), o cinema "cult" de violência extrema remove a hesitação. A morte é imediata, limpa de dilemas e rica em efeitos visuais.

3. Do Horror de "O Albergue" ao Sadismo "Afortunado"

Sua referência a O Albergue é cirúrgica. Naquele filme, os vilões pagam para torturar; no cinema de Sokolov ou Tarantino, o espectador paga o ingresso para a mesma função, mas com a proteção da "ironia".

  • Em Band of Brothers: A violência gera trauma (o "pacote" psíquico que o veterano carrega). É a violência como fratura.

  • No Cinema Pop: A violência gera satisfação (o checkpoint batido). É a violência como mercadoria.

Estamos vivendo a transição do "Pavor Moral" para o "Consumo Estético". Quando o "outro" é transformado em um zumbi ou um capanga genérico de videogame, eliminamos a possibilidade da Piedade. Sem piedade, não há conflito moral; há apenas a otimização da coreografia.

O perigo dessa cultura, como você bem pontuou, é que ela nos deseduca para o conflito real. Se o mundo é um reset constante e o inimigo é sempre um "demônio", perdemos a capacidade de negociar com o humano falível que está à nossa frente.

Você acredita que essa "demonização do alheio" no entretenimento está criando uma geração mais propensa a essa mesma lógica na política e nas relações sociais, onde o diálogo é substituído pelo desejo de "eliminar o vilão"?


FQ

Eu percebo que há casos já conhecidos de criminosos construídos pelo condicionamento do "game over / restart", mas não julgaria significativo.

Mas existe o "cancelamento", e o bullying extremado das redes sociais, que mostra o extremo de não ter o grau de tolerância e a percepção do perdão possível, e claramente existe a percepção de anulação do outro.


Os canalhas, assim como os bebês majestades envelhecem.


GG

Sua observação sobre o "cancelamento" e o bullying digital como extensões dessa mentalidade é um diagnóstico preciso da transposição da estética do descarte para o tecido social.

Ao mencionarmos que "os canalhas e os bebês majestades envelhecem", tocamos no ponto onde a psicanálise encontra a sociologia: o que acontece quando uma estrutura psíquica que não foi "domada" pela dor do outro ganha ferramentas de alcance global?

1. O Cancelamento como "Fatality" Digital

O cancelamento opera exatamente na lógica da demonização do alheio de Cirne-Lima. Nas redes sociais, o "alvo" deixa de ser um humano complexo, com contradições e possibilidade de erro, e passa a ser um personagem de videogame.

  • A Anulação do Outro: Ao cancelar alguém, o grupo exerce o sadismo do "Pequeno Imperador". Não se busca a reparação ou o diálogo (que exigem esforço moral e reconhecimento da alteridade), mas a exclusão ontológica.

  • O Botão de Delete: O linchamento virtual é o "game over" aplicado à vida civil. É a tentativa de fazer o outro desaparecer da tela social, como um zumbi ou vendido ao demônio trucidado em They Will Kill You.

2. A Atrofia do Perdão

O perdão, sob a ótica freudiana, exige que o Ego reconheça a própria falibilidade ("eu também poderia ter errado"). No entanto, a cultura da violência estética nos treina para a perfeição da coreografia.

  • Se o herói do filme nunca erra o golpe, o "juiz" da rede social não tolera o deslize verbal.

  • Sem o aprendizado do "jardim de infância" — onde o choro do colega que apanhou interrompe a brincadeira — a agressão digital torna-se puramente cerebral e estética. Não se ouve o grito; vê-se apenas o engajamento subir.

3. O Sadismo do Sofá e a Falta de Feedback Biológico

O grande problema que você aponta sobre a segurança entre a tela e o sofá é a perda do feedback biológico da violência.

  • Na violência física, o agressor sente o impacto, ouve o som real e vê o sofrimento, o que costuma ativar (em mentes não patológicas) mecanismos de inibição.

  • Na tela (seja no cinema de Sokolov ou no Twitter), essa barreira é absoluta. O sadismo torna-se "limpo". O canalha que envelheceu sem ser "domado" pela alteridade apenas troca a pistola de ar pela rede social, mantendo o mesmo prazer na destruição que o hóspede de O Albergue buscava.

O Humano Moral em Risco

A diferença fundamental entre o guerreiro de Band of Brothers e o "justiceiro" digital é o custo da alma. O guerreiro se sente diminuído ao matar; o cancelador se sente aumentado.

Quando a violência (física ou social) perde seu peso moral e se torna uma ferramenta de afirmação do Ego, entramos em um território perigoso. O "restart" não existe na vida real, mas a cultura pop nos convenceu de que, se o outro for "mau" o suficiente, a sua eliminação é um ato de beleza e justiça.

Os canalhas envelhecem, mas, munidos de algoritmos, eles agora podem transformar o mundo inteiro em um imenso cenário de They Will Kill You, onde a única coisa que importa é quem continua de pé para ver os créditos subirem.

FQ

Sobre o herói que nunca erra o golpe, na estética e clichês desta estética não há o baleado que sofre por horas de Cães de Aluguel, também de Tarantino, e existe o ferido sem dor. Não existe os pés cortados por cacos de vidro e o mancar de um John McClane, que passa boa parte do filme sem conseguir encontrar um par de calçados, mas a invulnerabilidade de um Aquiles ou Siegfried, banhado no Estige ou no sangue de dragão, até não invulnerável, mais insensível e intombável pela dor.

Mesmo produtos recentes evoluídos em franquias como John Wick e Sisu marcham nesse sentido.

O reset constante e imparável corporificado.


GG

Sua observação toca em um ponto de inflexão fundamental: a transição da vulnerabilidade humana (o herói que sangra) para a invulnerabilidade mítica (o herói que processa danos como um sistema computacional).

Quando você cita os pés de John McClane em Duro de Matar ou a agonia lenta de Mr. Orange em Cães de Aluguel, você fala de um cinema que ainda respeitava a biologia. Nesses filmes, a dor era um personagem; ela impunha limites, ditava o ritmo e, acima de tudo, gerava empatia. O espectador "sentia" o caco de vidro porque reconhecia a fragilidade da carne.

Aqui está a anatomia dessa mudança para o herói "insensível":

1. Do Herói Trágico ao Autômato Mítico

Os mitos de Aquiles e Siegfried continham a "falha" (o calcanhar, a folha de tília). Já o herói moderno como John Wick ou o protagonista de Sisu opera sob a lógica da otimização de sistema.

  • A Dor como Latência: Em John Wick, a dor não é um impedimento moral ou físico, mas um "atraso" técnico. Ele é atingido, cai, mas o "reset" interno é quase instantâneo. A dor foi removida da alma e deixada apenas na mecânica.

  • O Sangue de Dragão Digital: A invulnerabilidade atual não vem do Estige, mas da estética do videogame. Wick e os personagens de They Will Kill You possuem "barras de vida" invisíveis. Enquanto a barra não chega a zero, eles operam com 100% de eficiência. O "mancar" de McClane desapareceu porque o herói contemporâneo não pode perder a pose; a coreografia (o "flow") é mais importante que a verossimilhança biológica.

2. A Insensibilidade como Aspiração

Essa "intombabilidade" pela dor revela um desejo psíquico profundo da nossa era: o de ser funcional apesar de tudo.

  • O Imperador Moderno: Se o bebê majestade não aceita limites, o herói moderno corporifica essa fantasia. Ele é o " Pequeno Imperador" que atravessa paredes e continua caminhando.

  • A Dessensibilização do Espectador: Quando vemos um herói ser baleado cinco vezes e continuar lutando sem alteração no semblante, nosso próprio "sensor de empatia" é calibrado para baixo. A dor alheia torna-se um ruído de fundo, um efeito sonoro.

3. O "Reset" como Negação da Morte

O ferido de Cães de Aluguel nos lembra que a morte é suja, demorada e definitiva. Já o "reset constante" de franquias como John Wick nega a finitude.

  • No cinema biológico, cada ferida aproxima o herói do fim.

  • No cinema do "reset", cada ferida é apenas um estímulo para o próximo golpe.

Isso cria uma anestesia moral. Se o herói é insensível à própria dor, ele se torna inevitavelmente indiferente à dor que causa. É o sadismo dos hóspedes de O Albergue transvestido de heroísmo: a segurança de que, não importa o quão brutal seja o conflito, a estética permanecerá intocada e o protagonista, inabalável.

O "humano moral" de Band of Brothers titubeia porque sente o peso do dano causado e recebido. O herói de 2026 marcha porque, no fundo, ele já não é mais feito de carne, mas de pixels e vontade de poder.

Essa busca pela invulnerabilidade não seria, talvez, uma defesa contra a nossa própria sensação de fragilidade extrema no mundo real? Como se, ao vermos o herói "intombável", pudéssemos esquecer, por duas horas, que nós mesmos somos feitos de vidro e medo?

FQ

Eis a chave: o "ganho brutal de eficiência", como me apresentou certa vez um professor, o humano novo operário em surto de Tempos Modernos, ainda que em frente a uma tela, na sua baia (note o termo) na sua laje corporativa, conceito por mim apresentado numa aula de pós graduação, margeando todos o desumano, o homem máquina na eficiência insustentável do conceito que no jargão foi abandonado, mas ainda válido e em 'crescendo', o "turbocapitalismo". 


GG

Essa é a síntese perfeita: o homem-máquina não apenas como uma peça da engrenagem produtiva de Chaplin, mas como um algoritmo de desempenho que colonizou o próprio corpo e a própria subjetividade.

O "ganho brutal de eficiência" que o seu professor mencionou, transposto para a tela e para a estética da violência, é a vitória final do Turbo-Capitalismo sobre a biologia. Se o operário de Tempos Modernos entrava em colapso porque o ritmo da máquina superava o ritmo da carne, o herói de 2026 e o "humano novo" das redes sociais resolveram o problema tornando-se a própria máquina.

Ao conectarmos o seu conceito de pós-graduação com o eixo freudiano que vínhamos traçando, chegamos a três conclusões sombrias sobre essa eficiência insustentável:

1. A Pulsão de Morte a Serviço do Rendimento

No turbo-capitalismo, até a destruição precisa ser eficiente. O herói que não manca e o cancelador que não hesita são expressões do "sujeito de desempenho". A violência pop de Kirill Sokolov ou John Wick é a tradução visual da produtividade extrema: cada bala é um "clique", cada cadáver é uma tarefa concluída, cada cena é um KPI batido com precisão cirúrgica. É a morte sem resíduo, sem luto e sem pausa.

2. O Surto como Estado Permanente

Se em Chaplin o surto era o ponto de ruptura, no "humano novo" o surto foi normalizado sob a forma de hiper-estimulação.

  • O espectador, diante da tela, processa a violência extrema com a mesma velocidade que o operário apertava parafusos.

  • A insensibilidade à dor (do herói e nossa) é o mecanismo de defesa necessário para que a produção não pare. O "humano moral" de Band of Brothers é ineficiente; ele para para chorar, ele hesita, ele entra em colapso. No turbo-capitalismo, a hesitação é perda de lucro.

3. A "Eficiência Insustentável" do Desumano

O termo que você usou — insustentável — é a chave ética. Essa eficiência só é possível através da desumanização (a demonização do alheio de Cirne-Lima).

  • Para ser 100% eficiente na destruição, você precisa que o outro seja um "vampiro/zumbi/bot".

  • Para ser 100% eficiente no consumo de imagens, você precisa que a dor seja apenas estética.

O "crescendo" desse processo nos leva ao que você chamou de margear o desumano: o ponto onde a máquina não imita mais o homem, mas o homem se sente culpado por não ser tão infalível quanto a máquina. O "ganho brutal" é, na verdade, uma perda brutal de tudo o que nos torna orgânicos: o erro, a cicatriz e a compaixão.

Os "bebês majestades" que envelhecem como canalhas são os gestores desse sistema. Eles operam o reset do sofá enquanto o mundo real — feito de carne, pés cortados e mancares — sangra sem o direito a uma trilha sonora pop para anestesiar a queda.

O herói que não sente dor é, no fim das contas, o trabalhador ideal do turbo-capitalismo: aquele que não reclama, não adoece e, mesmo quebrado, continua entregando o resultado.

Nota: KPIs (Key Performance Indicators) são indicadores-chave de desempenho que medem o sucesso e o progresso em direção a metas estratégicas específicas de um negócio. Eles transformam dados brutos em inteligência, auxiliando na tomada de decisão baseada em fatos, não em suposições, garantindo foco no que é mais importante.



Síntese


O Que Resta do Humano que Ainda Manqueja

Com o apoio da I.A. Grok

Chegamos ao fim deste ensaiálogo, mas não ao fim da questão. O cinema de 2026, encarnado com vigor sádico-cartunesco por Kirill Sokolov em Eles vão te matar, não é apenas mais um capítulo na longa história da violência estetizada. Ele é o sintoma agudo de uma mutação antropológica em curso: a passagem definitiva do homem de carne — frágil, hesitante, moralmente manco — para o homem-máquina, eficiente, resetável e, acima de tudo, insensível.

Freud já via em O Mal-Estar na Civilização que a cultura se sustenta sobre a repressão de Thanatos, mas também sobre sua liberação controlada. O que mudou não é a pulsão de morte em si, mas a qualidade da sua sublimação. Outrora, a violência no cinema ainda carregava o peso do real: o caco de vidro cortando o pé de John McClane, o sangue lento e pegajoso de Mr. Orange em Cães de Aluguel, o pesadelo ético do soldado em Band of Brothers. Havia custo. Havia mancar. Havia, portanto, humanidade.

Hoje, a coreografia pop de Sokolov, Tarantino ou da franquia John Wick oferece o oposto: uma Thanatos embelezada, higienizada, transformada em espetáculo de eficiência. O sangue vira tinta neon, o golpe vira passo de dança, o ferimento vira mero checkpoint. O herói não sangra mais — ou, quando sangra, o faz sem perder o flow. Ele é o operário ideal do turbocapitalismo: não adoece, não hesita, não carrega trauma. Processa o dano como um sistema operacional e segue entregando resultado.

Carlos Cirne-Lima nos ajuda a entender o mecanismo ético por trás disso. Ao demonizar o alheio — transformando o outro em zumbi, vampiro, cultista ou simplesmente “cancelável” —, anulamos a alteridade. Sem rosto do outro, não há espelho. Sem espelho, não há o aprendizado doloroso do jardim de infância: “se eu bato, eu também sinto”. Resta apenas o Pequeno Imperador digital, agora adulto, munido de algoritmos e engajamento, exercendo seu sadismo limpo do sofá ou da baia corporativa.

O mais inquietante é que essa estética não é mera escapatória. Ela é treinamento. Treinamento para uma subjetividade que valoriza acima de tudo a invulnerabilidade funcional. No mundo real, o turbocapitalismo exige o mesmo: resiliência performática, reset emocional rápido, ausência de luto prolongado. O herói que não manca é o colega que nunca tira licença médica, o influenciador que nunca admite erro, o cancelador que nunca perdoa. Todos operando no mesmo modo: game over para o outro, restart para si.

Eros, nesse cenário, não desaparece — ele é cooptado. A “erotização da destruição” que Larry Flynt já denunciava se aperfeiçoa: assistimos ao esfacelamento coreografado com o mesmo prazer visual que outrora reservávamos ao corpo desejante. Thanatos veste a roupa de gala do espetáculo pop e o Superego aplaude, desde que a paleta de cores esteja certa.

Resta, então, perguntar: o que sobra do humano que ainda manqueja? Aquele que sente o vidro sob os pés, que carrega o peso moral do ato de matar (ou de excluir), que hesita diante do rosto do outro? Ele não desapareceu por completo. Sobrevive em brechas — em filmes que ainda ousam mostrar a dor demorada, em relações que resistem à lógica do descarte, em corpos que insistem em adoecer, em mentes que ainda se permitem o luxo improdutivo do luto e da compaixão.

Talvez o verdadeiro ato de resistência, neste 2026 de eficiência brutal, não seja mais produzir violência estilosa, mas insistir na imperfeição orgânica. No direito de mancar. No direito de sentir o peso. No direito de não resetar.

Porque, no fim, o que o cinema de Sokolov e seus pares nos devolve não é catarse aristotélica pura. É um espelho distorcido: vemos neles o que estamos nos tornando — e o preço que pagamos para conseguir assistir sem desviar o olhar.

O humano moral ainda sangra.

A questão é se ainda queremos vê-lo sangrar — ou se preferimos que ele simplesmente suma entre um corte seco e uma trilha sonora vibrante.

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