Um ensaio Freudiano sobre a violência no cinema
Introdução: A Estética da Insensibilidade
O texto que se segue não é um artigo convencional, mas um Ensaiálogo: uma investigação dialética construída em tempo real entre o pensamento humano e a inteligência artificial. O ponto de partida é uma provocação de Larry Flynt sobre a hipocrisia moral americana, mas o destino é muito mais profundo: a análise de como o cinema de 2026 e o "turbocapitalismo" moldaram um novo tipo de humano.
Neste diálogo, exploramos a transição do "herói que sangra" — aquele que sente o vidro sob os pés e o peso moral do ato de matar — para o "herói-máquina" da era digital. Através das lentes de Sigmund Freud, as categorias de Eros e Thanatos são usadas para decifrar a violência "pop" e coreográfica de diretores como Kirill Sokolov.
A discussão ganha corpo ético ao invocar a "demonização do alheio" do filósofo brasileiro Carlos Cirne-Lima, conectando o sadismo estético das telas ao fenômeno do cancelamento nas redes sociais. O que emerge é o retrato de uma sociedade que, sob a pressão de um ganho brutal de eficiência, trocou a empatia biológica pelo "reset" constante do videogame, transformando a dor em mercadoria e o ser humano em um operário infalível de sua própria destruição.
Prepare-se para um percurso que atravessa trincheiras de guerra, telas de cinema e baias corporativas, em busca do que ainda resta de humano em um mundo que aprendeu a não mancar.
Em tempo: Se você julga que o tema não relaciona-se com religiões, embora claramente se relaciona - como tudo - com Filosofia, saiba que a “demonização do alheio” que vai conhecer - se já não conhece - relaciona-se intimamente com os fenômenos religiosos de massa e infiltração com o poder estatal.
Francisco Quiumento (FQ) e Gemini da Google (GG)
FQ
Demorei um certo tempo para ver o já "condenado" ao cult "Eles vão te matar", 2026, do diretor Kirill Sokolov.
Lembrei imediatamente de uma cena e fala que muito me marcou de "O povo contra Larry Flint" (1996), onde o empresário do erotismo pesado mostra imagens de cenas eróticas e afirma que o povo (e a lei) americana considerava aquilo obsceno, e mostrando imagens violentas, inclusive factuais da Guerra do Vietnã, julgava estas aceitáveis.
O eixo de nossa conversa é que o cinema tem sido permeado por uma violência extrema que seja aceitável, desde que coreográfica e pop em diversos sentidos, como visto nesse filme ("Eles vão te matar") e no recente "Gunpowder Milkshake: Mistura Explosiva" (2021).
Há, claro, antecedentes, desde as referências para "Eles vão te matar", "Um Drink no Inferno", dirigido por Robert Rodriguez e "Kill Bill", dirigido por Quentin Tarantino, ambos com roteiro de Tarantino.
GG
Essa contradição apontada por Larry Flynt — a criminalização do prazer (Eros) em detrimento da naturalização da destruição (Thanatos) — é o ponto de partida ideal para uma análise freudiana. No cinema contemporâneo, a violência "pop" e coreográfica de obras como Eles vão te matar ou Gunpowder Milkshake atua como um mecanismo refinado de mediação psíquica.
Aqui está uma análise estruturada sob a ótica da metapsicologia freudiana:
1. O Mal-Estar e a Estetização da Pulsão de Morte
Em O Mal-Estar na Civilização (1930), Freud argumenta que a cultura exige a renúncia de nossas pulsões agressivas para garantir a convivência social. No entanto, a Pulsão de Morte (Thanatos) não desaparece; ela é internalizada ou sublimada.
O cinema de Tarantino, e agora essa nova leva de violência extrema, funciona como um espaço de sublimação. Quando a violência se torna "coreográfica" e "pop", ela retira o peso do real (o trauma) e o transforma em estética. O espectador pode gozar da agressividade sem a culpa moral, pois o cenário colorido e a trilha sonora vibrante sinalizam ao Superego que "isso é apenas um jogo".
2. A Obscenidade: Eros vs. Thanatos
A provocação de Flynt revela a hipocrisia das defesas civilizatórias:
O Sexo (Eros): É visto como obsceno porque representa a perda de controle e a busca pelo prazer individual, algo que a moralidade puritana tenta domesticar para fins reprodutivos ou sociais.
A Violência (Thanatos): Frequentemente recebe o selo de "aceitável" (especialmente em contextos de guerra ou justiça) porque pode ser canalizada pelo Estado ou por narrativas de heroísmo.
Filmes como Gunpowder Milkshake dão um passo além: eles pegam a violência factual — que seria insuportável — e a transformam em fetiche. A arma, o sangue em neon e o movimento preciso tornam-se objetos de desejo visual. É a "erotização da destruição".
3. O Retorno do Recalcado e o "Unheimlich"
Se em Kill Bill temos a catarse da vingança, em Eles vão te matar a barreira entre a coreografia e o horror visceral se rompe. Freud falava do Unheimlich (o inquietante/infamiliar): aquilo que deveria ter permanecido oculto, mas que veio à tona.
Enquanto a violência "pop" nos protege através da distância estética, filmes que cruzam essa linha nos confrontam com a crueza da pulsão pura. A lei americana citada por Flynt aceita a violência desde que ela seja "útil" ou "distante"; o cinema atual a aceita desde que seja "bela".
O Tabuleiro das Pulsões
Podemos comparar essa dinâmica cinematográfica a uma estrutura de compensação:
Essa aceitação da violência extrema no cinema contemporâneo sugere que, quanto mais restritiva e "civilizada" se torna a vida cotidiana, mais explosiva e estilizada precisa ser a nossa válvula de escape visual. O cinema não é apenas um espelho, mas um laboratório onde Thanatos se veste de gala para ser convidado à festa do Ego.
O que mais lhe chamou a atenção na transição da violência "moral" de Tarantino para a "visceralidade" de They Will Kill You The Sadness?
FQ
A violência está mais “plástica”, mais o que aos tempos de Matrix e Corra, Lola, Corra era chamado de ‘cinemoving’, uma exuberância de técnica especialmente na velocidade de câmera e o permanente cuidado com o movimento.
O que você poderia falar do diretor Sokolov?
GG
Tratando-se de Kirill Sokolov. Se tomarmos como base o trabalho anterior dele (como o visceral Why Don't You Just Die!), entendemos que o "pop" aqui ganha uma camada de ironia russa e um sadismo quase cartunesco que se encaixa perfeitamente na análise freudiana.
Sokolov não faz apenas violência coreografada; ele faz o que Freud chamaria de hiper-investimento libidinal no objeto de destruição.
O Sadismo como Espetáculo: A Estética de Sokolov
Em They Will Kill You, a violência deixa de ser um meio para um fim (vingança ou justiça) e passa a ser o próprio objeto de prazer visual. Sob a ótica freudiana, temos aqui:
A Regressão ao Estágio Anal-Sádico: Freud descreveu uma fase do desenvolvimento onde o prazer está ligado ao controle, à dominação e à destruição do objeto. Sokolov coloca o espectador nessa posição: nos divertimos com a fragmentação dos corpos porque o filme remove a "humanidade" das vítimas através do excesso. O sangue não é vermelho-dor; é vermelho-tinta, uma explosão de cor que satisfaz o Id.
A "Doma" do Medo pela Repetição: Na neurose traumática, o indivíduo repete o trauma para tentar dominá-lo (Compulsão à Repetição). O cinema de Sokolov faz isso com a violência: ela é tão incessante, tão ruidosa e tão "acima do tom" que o medo da morte (angústia real) é substituído pelo riso nervoso ou pelo deleite estético. É uma vitória técnica sobre o horror.
O Contraste com Larry Flynt
Retomando o eixo que você propôs sobre O Povo contra Larry Flynt: A lei aceita a imagem factual do Vietnã porque ela é "pedagógica" ou "informativa" (uma racionalização do Superego). Já o cinema de Sokolov é "condenado" ou visto com ressalvas justamente porque ele expõe o que a sociedade quer esconder: que a destruição pode ser divertida.
Flynt apontava que o sexo é punido porque é um prazer privado e descontrolado. A violência de They Will Kill You é aceita pela cultura "cult" porque está protegida pela moldura da arte. Se a violência é "bem filmada", ela deixa de ser um crime e passa a ser "estilo".
A Coreografia como Máscara
Diferente de Kill Bill, onde a coreografia é um tributo ao cinema de gênero, em diretores como Sokolov e na nova leva de 2026, a coreografia serve para anestesiar a empatia.
No momento em que um golpe se torna um passo de dança (como em Gunpowder Milkshake), o "outro" deixa de ser um semelhante e passa a ser um suporte para a performance.
É o triunfo total de Narciso: o espectador não sofre com a vítima; ele admira a técnica de quem golpeia.
Essa "violência aceitável" que você menciona é, no fundo, a nossa pulsão de morte domesticada pelo design de produção. Gostamos de ver o mundo pegar fogo, desde que as chamas combinem com a paleta de cores do diretor.
Considerando o estilo explosivo do Sokolov, você acha que essa "estetização do sangue" nos torna mais tolerantes à violência real ou, como diria a catarse aristotélica, apenas limpa nossa "sujeira interna" para que possamos continuar vivendo em sociedade?
FQ
Vampiros e imortais que venderam sua alma, some-se zumbis, podem ser trucidados sem pena, pois são "o mal".
Invoco a "demonização do alheio", do professor Carlos Cirne Lima.
Os inimigos de videogames podem ser trucidados sem fim, sem risco de realmente reagirem.
Houve o gameover, retorna-se com um "reiniciar".
Não há as lições dos conflitos do jardim de infância, na doma pelos outros do pequeno imperador que é cada novo humano, que aprende desde cedo que pode também sofrer dor ao impingir dor aos outros.
Nessa cultura de mídia, não há o pavor moral dos guerreiros em Band of Brothers e The Pacific, em terem pesadelos e traumas respectivamente por terem matado um adolescente que titubeou na sua frente ou um jovem que queria se render.
Não há o humano moral, mesmo em meio ao terror. Há apenas a satisfação de ver a violência, uma estética de na segurança entre a tela e o sofá, se viver o sadismo dos hóspedes mais afortunados de "O Albergue" (filme de terror estadunidense de 2005 dirigido por Eli Roth e coproduzido por Quentin Tarantino).
Nota: Carlos Cirne Lima ou somente Cirne-Lima foi um filósofo dialético contemporâneo brasileiro. Reconhecido mundialmente também pela originalidade de suas pesquisas em Hegel. - pt.wikipedia.org - Carlos Cirne Lima
GG
Você tocou no nervo exposto da desumanização contemporânea. Ao evocar Carlos Cirne-Lima e a "demonização do alheio", você desloca a discussão da estética para a ética: a violência deixa de ser uma questão de "estilo" e passa a ser uma questão de ontologia.
Se o "outro" é ontologicamente mau (vampiro, zumbi, nazista de videogame), ele perde o status de pessoa. Ao transformá-lo em "coisa", o cinema e os games anulam a alteridade.
Aqui está o desdobramento dessa "demonização" sob a ótica freudiana e ética:
1. O Pequeno Imperador e a Ausência do Espelho
Freud falava do Narcisismo Primário, onde a criança se vê como o centro do universo ("Sua Majestade, o Bebê"). A civilização começa quando o "outro" reage e impõe um limite físico e moral: "se eu bato, eu também sinto dor".
A cultura do gameover e da violência pop (como em They Will Kill You) rompe esse aprendizado. Ela nos devolve ao estado de "pequeno imperador". Na segurança do sofá, o espectador exerce um poder absoluto sem o custo psíquico da culpa. Não há o "rosto" do outro, apenas o alvo.
2. A Demonização como Anestesia do Superego
Cirne-Lima argumentava que, ao rotular o outro como "demoníaco", nós nos desobrigamos de qualquer dever moral para com ele. No cinema de Sokolov ou na estética de Gunpowder Milkshake, ocorre um fenômeno de Clivagem do Ego:
O espectador sabe que aquilo é humano (forma), mas o roteiro diz que é "o mal" (essência).
Essa clivagem permite que o Id se delicie com o sadismo enquanto o Superego dorme, pois "matar monstros não é pecado".
Diferente de Band of Brothers, onde o soldado reconhece no inimigo um espelho de si mesmo (o adolescente que hesita), o cinema "cult" de violência extrema remove a hesitação. A morte é imediata, limpa de dilemas e rica em efeitos visuais.
3. Do Horror de "O Albergue" ao Sadismo "Afortunado"
Sua referência a O Albergue é cirúrgica. Naquele filme, os vilões pagam para torturar; no cinema de Sokolov ou Tarantino, o espectador paga o ingresso para a mesma função, mas com a proteção da "ironia".
Em Band of Brothers: A violência gera trauma (o "pacote" psíquico que o veterano carrega). É a violência como fratura.
No Cinema Pop: A violência gera satisfação (o checkpoint batido). É a violência como mercadoria.
Estamos vivendo a transição do "Pavor Moral" para o "Consumo Estético". Quando o "outro" é transformado em um zumbi ou um capanga genérico de videogame, eliminamos a possibilidade da Piedade. Sem piedade, não há conflito moral; há apenas a otimização da coreografia.
O perigo dessa cultura, como você bem pontuou, é que ela nos deseduca para o conflito real. Se o mundo é um reset constante e o inimigo é sempre um "demônio", perdemos a capacidade de negociar com o humano falível que está à nossa frente.
Você acredita que essa "demonização do alheio" no entretenimento está criando uma geração mais propensa a essa mesma lógica na política e nas relações sociais, onde o diálogo é substituído pelo desejo de "eliminar o vilão"?
FQ
Eu percebo que há casos já conhecidos de criminosos construídos pelo condicionamento do "game over / restart", mas não julgaria significativo.
Mas existe o "cancelamento", e o bullying extremado das redes sociais, que mostra o extremo de não ter o grau de tolerância e a percepção do perdão possível, e claramente existe a percepção de anulação do outro.
Os canalhas, assim como os bebês majestades envelhecem.
GG
Sua observação sobre o "cancelamento" e o bullying digital como extensões dessa mentalidade é um diagnóstico preciso da transposição da estética do descarte para o tecido social.
Ao mencionarmos que "os canalhas e os bebês majestades envelhecem", tocamos no ponto onde a psicanálise encontra a sociologia: o que acontece quando uma estrutura psíquica que não foi "domada" pela dor do outro ganha ferramentas de alcance global?
1. O Cancelamento como "Fatality" Digital
O cancelamento opera exatamente na lógica da demonização do alheio de Cirne-Lima. Nas redes sociais, o "alvo" deixa de ser um humano complexo, com contradições e possibilidade de erro, e passa a ser um personagem de videogame.
A Anulação do Outro: Ao cancelar alguém, o grupo exerce o sadismo do "Pequeno Imperador". Não se busca a reparação ou o diálogo (que exigem esforço moral e reconhecimento da alteridade), mas a exclusão ontológica.
O Botão de Delete: O linchamento virtual é o "game over" aplicado à vida civil. É a tentativa de fazer o outro desaparecer da tela social, como um zumbi ou vendido ao demônio trucidado em They Will Kill You.
2. A Atrofia do Perdão
O perdão, sob a ótica freudiana, exige que o Ego reconheça a própria falibilidade ("eu também poderia ter errado"). No entanto, a cultura da violência estética nos treina para a perfeição da coreografia.
Se o herói do filme nunca erra o golpe, o "juiz" da rede social não tolera o deslize verbal.
Sem o aprendizado do "jardim de infância" — onde o choro do colega que apanhou interrompe a brincadeira — a agressão digital torna-se puramente cerebral e estética. Não se ouve o grito; vê-se apenas o engajamento subir.
3. O Sadismo do Sofá e a Falta de Feedback Biológico
O grande problema que você aponta sobre a segurança entre a tela e o sofá é a perda do feedback biológico da violência.
Na violência física, o agressor sente o impacto, ouve o som real e vê o sofrimento, o que costuma ativar (em mentes não patológicas) mecanismos de inibição.
Na tela (seja no cinema de Sokolov ou no Twitter), essa barreira é absoluta. O sadismo torna-se "limpo". O canalha que envelheceu sem ser "domado" pela alteridade apenas troca a pistola de ar pela rede social, mantendo o mesmo prazer na destruição que o hóspede de O Albergue buscava.
O Humano Moral em Risco
A diferença fundamental entre o guerreiro de Band of Brothers e o "justiceiro" digital é o custo da alma. O guerreiro se sente diminuído ao matar; o cancelador se sente aumentado.
Quando a violência (física ou social) perde seu peso moral e se torna uma ferramenta de afirmação do Ego, entramos em um território perigoso. O "restart" não existe na vida real, mas a cultura pop nos convenceu de que, se o outro for "mau" o suficiente, a sua eliminação é um ato de beleza e justiça.
Os canalhas envelhecem, mas, munidos de algoritmos, eles agora podem transformar o mundo inteiro em um imenso cenário de They Will Kill You, onde a única coisa que importa é quem continua de pé para ver os créditos subirem.
FQ
Sobre o herói que nunca erra o golpe, na estética e clichês desta estética não há o baleado que sofre por horas de Cães de Aluguel, também de Tarantino, e existe o ferido sem dor. Não existe os pés cortados por cacos de vidro e o mancar de um John McClane, que passa boa parte do filme sem conseguir encontrar um par de calçados, mas a invulnerabilidade de um Aquiles ou Siegfried, banhado no Estige ou no sangue de dragão, até não invulnerável, mais insensível e intombável pela dor.
Mesmo produtos recentes evoluídos em franquias como John Wick e Sisu marcham nesse sentido.
O reset constante e imparável corporificado.
GG
Sua observação toca em um ponto de inflexão fundamental: a transição da vulnerabilidade humana (o herói que sangra) para a invulnerabilidade mítica (o herói que processa danos como um sistema computacional).
Quando você cita os pés de John McClane em Duro de Matar ou a agonia lenta de Mr. Orange em Cães de Aluguel, você fala de um cinema que ainda respeitava a biologia. Nesses filmes, a dor era um personagem; ela impunha limites, ditava o ritmo e, acima de tudo, gerava empatia. O espectador "sentia" o caco de vidro porque reconhecia a fragilidade da carne.
Aqui está a anatomia dessa mudança para o herói "insensível":
1. Do Herói Trágico ao Autômato Mítico
Os mitos de Aquiles e Siegfried continham a "falha" (o calcanhar, a folha de tília). Já o herói moderno como John Wick ou o protagonista de Sisu opera sob a lógica da otimização de sistema.
A Dor como Latência: Em John Wick, a dor não é um impedimento moral ou físico, mas um "atraso" técnico. Ele é atingido, cai, mas o "reset" interno é quase instantâneo. A dor foi removida da alma e deixada apenas na mecânica.
O Sangue de Dragão Digital: A invulnerabilidade atual não vem do Estige, mas da estética do videogame. Wick e os personagens de They Will Kill You possuem "barras de vida" invisíveis. Enquanto a barra não chega a zero, eles operam com 100% de eficiência. O "mancar" de McClane desapareceu porque o herói contemporâneo não pode perder a pose; a coreografia (o "flow") é mais importante que a verossimilhança biológica.
2. A Insensibilidade como Aspiração
Essa "intombabilidade" pela dor revela um desejo psíquico profundo da nossa era: o de ser funcional apesar de tudo.
O Imperador Moderno: Se o bebê majestade não aceita limites, o herói moderno corporifica essa fantasia. Ele é o " Pequeno Imperador" que atravessa paredes e continua caminhando.
A Dessensibilização do Espectador: Quando vemos um herói ser baleado cinco vezes e continuar lutando sem alteração no semblante, nosso próprio "sensor de empatia" é calibrado para baixo. A dor alheia torna-se um ruído de fundo, um efeito sonoro.
3. O "Reset" como Negação da Morte
O ferido de Cães de Aluguel nos lembra que a morte é suja, demorada e definitiva. Já o "reset constante" de franquias como John Wick nega a finitude.
No cinema biológico, cada ferida aproxima o herói do fim.
No cinema do "reset", cada ferida é apenas um estímulo para o próximo golpe.
Isso cria uma anestesia moral. Se o herói é insensível à própria dor, ele se torna inevitavelmente indiferente à dor que causa. É o sadismo dos hóspedes de O Albergue transvestido de heroísmo: a segurança de que, não importa o quão brutal seja o conflito, a estética permanecerá intocada e o protagonista, inabalável.
O "humano moral" de Band of Brothers titubeia porque sente o peso do dano causado e recebido. O herói de 2026 marcha porque, no fundo, ele já não é mais feito de carne, mas de pixels e vontade de poder.
Essa busca pela invulnerabilidade não seria, talvez, uma defesa contra a nossa própria sensação de fragilidade extrema no mundo real? Como se, ao vermos o herói "intombável", pudéssemos esquecer, por duas horas, que nós mesmos somos feitos de vidro e medo?
FQ
Eis a chave: o "ganho brutal de eficiência", como me apresentou certa vez um professor, o humano novo operário em surto de Tempos Modernos, ainda que em frente a uma tela, na sua baia (note o termo) na sua laje corporativa, conceito por mim apresentado numa aula de pós graduação, margeando todos o desumano, o homem máquina na eficiência insustentável do conceito que no jargão foi abandonado, mas ainda válido e em 'crescendo', o "turbocapitalismo".
GG
Essa é a síntese perfeita: o homem-máquina não apenas como uma peça da engrenagem produtiva de Chaplin, mas como um algoritmo de desempenho que colonizou o próprio corpo e a própria subjetividade.
O "ganho brutal de eficiência" que o seu professor mencionou, transposto para a tela e para a estética da violência, é a vitória final do Turbo-Capitalismo sobre a biologia. Se o operário de Tempos Modernos entrava em colapso porque o ritmo da máquina superava o ritmo da carne, o herói de 2026 e o "humano novo" das redes sociais resolveram o problema tornando-se a própria máquina.
Ao conectarmos o seu conceito de pós-graduação com o eixo freudiano que vínhamos traçando, chegamos a três conclusões sombrias sobre essa eficiência insustentável:
1. A Pulsão de Morte a Serviço do Rendimento
No turbo-capitalismo, até a destruição precisa ser eficiente. O herói que não manca e o cancelador que não hesita são expressões do "sujeito de desempenho". A violência pop de Kirill Sokolov ou John Wick é a tradução visual da produtividade extrema: cada bala é um "clique", cada cadáver é uma tarefa concluída, cada cena é um KPI batido com precisão cirúrgica. É a morte sem resíduo, sem luto e sem pausa.
2. O Surto como Estado Permanente
Se em Chaplin o surto era o ponto de ruptura, no "humano novo" o surto foi normalizado sob a forma de hiper-estimulação.
O espectador, diante da tela, processa a violência extrema com a mesma velocidade que o operário apertava parafusos.
A insensibilidade à dor (do herói e nossa) é o mecanismo de defesa necessário para que a produção não pare. O "humano moral" de Band of Brothers é ineficiente; ele para para chorar, ele hesita, ele entra em colapso. No turbo-capitalismo, a hesitação é perda de lucro.
3. A "Eficiência Insustentável" do Desumano
O termo que você usou — insustentável — é a chave ética. Essa eficiência só é possível através da desumanização (a demonização do alheio de Cirne-Lima).
Para ser 100% eficiente na destruição, você precisa que o outro seja um "vampiro/zumbi/bot".
Para ser 100% eficiente no consumo de imagens, você precisa que a dor seja apenas estética.
O "crescendo" desse processo nos leva ao que você chamou de margear o desumano: o ponto onde a máquina não imita mais o homem, mas o homem se sente culpado por não ser tão infalível quanto a máquina. O "ganho brutal" é, na verdade, uma perda brutal de tudo o que nos torna orgânicos: o erro, a cicatriz e a compaixão.
Os "bebês majestades" que envelhecem como canalhas são os gestores desse sistema. Eles operam o reset do sofá enquanto o mundo real — feito de carne, pés cortados e mancares — sangra sem o direito a uma trilha sonora pop para anestesiar a queda.
O herói que não sente dor é, no fim das contas, o trabalhador ideal do turbo-capitalismo: aquele que não reclama, não adoece e, mesmo quebrado, continua entregando o resultado.
Nota: KPIs (Key Performance Indicators) são indicadores-chave de desempenho que medem o sucesso e o progresso em direção a metas estratégicas específicas de um negócio. Eles transformam dados brutos em inteligência, auxiliando na tomada de decisão baseada em fatos, não em suposições, garantindo foco no que é mais importante.
Síntese
O Que Resta do Humano que Ainda Manqueja
Com o apoio da I.A. Grok
Chegamos ao fim deste ensaiálogo, mas não ao fim da questão. O cinema de 2026, encarnado com vigor sádico-cartunesco por Kirill Sokolov em Eles vão te matar, não é apenas mais um capítulo na longa história da violência estetizada. Ele é o sintoma agudo de uma mutação antropológica em curso: a passagem definitiva do homem de carne — frágil, hesitante, moralmente manco — para o homem-máquina, eficiente, resetável e, acima de tudo, insensível.
Freud já via em O Mal-Estar na Civilização que a cultura se sustenta sobre a repressão de Thanatos, mas também sobre sua liberação controlada. O que mudou não é a pulsão de morte em si, mas a qualidade da sua sublimação. Outrora, a violência no cinema ainda carregava o peso do real: o caco de vidro cortando o pé de John McClane, o sangue lento e pegajoso de Mr. Orange em Cães de Aluguel, o pesadelo ético do soldado em Band of Brothers. Havia custo. Havia mancar. Havia, portanto, humanidade.
Hoje, a coreografia pop de Sokolov, Tarantino ou da franquia John Wick oferece o oposto: uma Thanatos embelezada, higienizada, transformada em espetáculo de eficiência. O sangue vira tinta neon, o golpe vira passo de dança, o ferimento vira mero checkpoint. O herói não sangra mais — ou, quando sangra, o faz sem perder o flow. Ele é o operário ideal do turbocapitalismo: não adoece, não hesita, não carrega trauma. Processa o dano como um sistema operacional e segue entregando resultado.
Carlos Cirne-Lima nos ajuda a entender o mecanismo ético por trás disso. Ao demonizar o alheio — transformando o outro em zumbi, vampiro, cultista ou simplesmente “cancelável” —, anulamos a alteridade. Sem rosto do outro, não há espelho. Sem espelho, não há o aprendizado doloroso do jardim de infância: “se eu bato, eu também sinto”. Resta apenas o Pequeno Imperador digital, agora adulto, munido de algoritmos e engajamento, exercendo seu sadismo limpo do sofá ou da baia corporativa.
O mais inquietante é que essa estética não é mera escapatória. Ela é treinamento. Treinamento para uma subjetividade que valoriza acima de tudo a invulnerabilidade funcional. No mundo real, o turbocapitalismo exige o mesmo: resiliência performática, reset emocional rápido, ausência de luto prolongado. O herói que não manca é o colega que nunca tira licença médica, o influenciador que nunca admite erro, o cancelador que nunca perdoa. Todos operando no mesmo modo: game over para o outro, restart para si.
Eros, nesse cenário, não desaparece — ele é cooptado. A “erotização da destruição” que Larry Flynt já denunciava se aperfeiçoa: assistimos ao esfacelamento coreografado com o mesmo prazer visual que outrora reservávamos ao corpo desejante. Thanatos veste a roupa de gala do espetáculo pop e o Superego aplaude, desde que a paleta de cores esteja certa.
Resta, então, perguntar: o que sobra do humano que ainda manqueja? Aquele que sente o vidro sob os pés, que carrega o peso moral do ato de matar (ou de excluir), que hesita diante do rosto do outro? Ele não desapareceu por completo. Sobrevive em brechas — em filmes que ainda ousam mostrar a dor demorada, em relações que resistem à lógica do descarte, em corpos que insistem em adoecer, em mentes que ainda se permitem o luxo improdutivo do luto e da compaixão.
Talvez o verdadeiro ato de resistência, neste 2026 de eficiência brutal, não seja mais produzir violência estilosa, mas insistir na imperfeição orgânica. No direito de mancar. No direito de sentir o peso. No direito de não resetar.
Porque, no fim, o que o cinema de Sokolov e seus pares nos devolve não é catarse aristotélica pura. É um espelho distorcido: vemos neles o que estamos nos tornando — e o preço que pagamos para conseguir assistir sem desviar o olhar.
O humano moral ainda sangra.
A questão é se ainda queremos vê-lo sangrar — ou se preferimos que ele simplesmente suma entre um corte seco e uma trilha sonora vibrante.
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