quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Teleologia de Kant - 1


Uma série complementar ao nosso artigo: 

Teleologia em Kant - Scientia 



Traduzido de: en.wikipedia.org - Kant's teleology



A teleologia é uma ideia filosófica em que os fenômenos naturais são explicados em termos do propósito a que servem, e não da causa pela qual surgem.


Os escritos de Kant sobre teleologia estão contidos na segunda parte da Crítica do Julgamento, publicada em 1790. A Crítica do Julgamento é dividida em duas partes, com a primeira parte Crítica do Julgamento Estético e a segunda sendo Crítica do Julgamento Teleológico. Na primeira parte, Kant discute e apresenta suas idéias sobre estética e, na segunda parte, Kant discute como a teleologia tem um papel em nossa compreensão dos sistemas naturais e das ciências naturais. [1] A filosofia moral de Kant também se preocupa com os fins, mas apenas em relação aos humanos, [Nota 1] onde ele considera errado usar um indivíduo apenas como meio. A Crítica da Teleologia está preocupada com os fins na natureza e, portanto, essa discussão sobre os fins é mais ampla do que na filosofia moral de Kant. [2]    


As afirmações mais notáveis de Kant em sua descrição da teleologia natural são que os organismos devem ser considerados pelos seres humanos como "propósitos naturais" na Analítica do Julgamento Teleológico e seus argumentos sobre como reconciliar sua ideia teleológica de organismos com uma visão mecanicista da natureza na Dialética de Julgamento Teleológico. [3]     


Notas


1.A distinção de Kant é baseada em uma capacidade exclusivamente humana de pensamento racional.


Referências


1.Kant, Immanuel; Guyer, Paul (2000). Critique of the power of judgment. Cambridge, UK: Cambridge University Press.ISBN 9780511338533. OCLC 182847379.


2.Parfit, Derek; Scheffler, Samuel (2011). On what matters. Volume one. Oxford: Oxford University Press.ISBN 9780191576706. OCLC 744616054.


3.Allison, Henry E. (2012). Essays on Kant. Oxford University Press. ISBN 9780191631528. OCLC 807061312.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Epicuríadas - 2

 


Antes, uma nota inicial


Foi publicado há alguns anos na Scientific American um artigo sobre a natureza das informações na era digital / internet e sua “volatilidade”, e que a única esperança para enfrentar-se esse problema é a permanente reprodutibilidade / duplicação.


Preserving scholarly information: LOCKSS, CLOCKKS, and portico


While the switch from print to digital publishing has been embraced by younger researchers and students, older faculty are a little more nervous about the impact of this (nearly complete) transition.


(Preservando informações acadêmicas: LOCKSS, CLOCKKS e pórtico


Embora a mudança da publicação impressa para a digital tenha sido adotada por pesquisadores e alunos mais jovens, os professores mais velhos estão um pouco mais nervosos com o impacto dessa transição (quase completa).)


https://blogs.scientificamerican.com/information-culture/preserving-scholarly-information-lockss-clockks-and-portico/ 



Um tratamento sério do paradoxo na web:


Elan Marinho, O Paradoxo de Epicuro; 06/09/2015 - filovida.org 


Nos nossos arquivos: Elan Marinho - O Paradoxo de Epicuro 


Destaquemos:

“Antes disso, todavia – antes que sentenciem-me os seguidores de Lane Craig –, é necessário comentar: a falta de definição prévia do significante “mal” no argumento epicurista o torna incompleto, posto que esse tipo de conceito é subjetivo por excelência e varia de tempos em tempos. O “mal” não tem uma essência muito bem definida – pode ser comparado a ideia de “perfeito” ou de “justiça”.


Esse conceito surgiu a partir do momento em que o homem notou que existiam coisas que lhe traziam maus sentimentos. Isso se dava pelo fato de que a natureza humana era (e ainda é), essencialmente, vontade de expansão – tal como aparentam ser todos os seres físicos: quando um mal acontece ao homem, ele naturalmente sente-se mal pela perda de sua dominância, de seu poder sobre o mundo; naturalmente o inverso ocorre quando um bem acontece a ele. A picada de uma abelha causava dor. Logo, entendia-se que ela era causadora do sentimento ruim e, por conseguinte, era má. A morte de um familiar trazia angústia, logo, entendia-se que a morte era causadora do sentimento ruim, portanto, que era má.


Desse modo, o conceito perdurou e tornou-se mais complexo com o passar do tempo, como quando no momento em que o homem notou que existiam coisas más que causavam coisas boas e vice-e-versa – conceber um filho, por exemplo (nunca se cessam, aliás, as alegrias de possuir outro alguém). Isso sem falar da boa aceitação da ideia de que abelhas, escorpiões, serpentes e outros inumanos não agiam por “mal” ou que não eram dotados da “razão” e do “livre-arbítrio” – princípio que se disseminou muito rápido com o advento do cristianismo.


Logo, guarde, enquanto premissa para o que se segue, a afirmativa de que o mal é tudo que é indesejável ou que causa sofrimento, porquanto – para todos os efeitos – é uma premissa aplicável a pelo menos algumas das coisas que presentemente e que, de certo, futuramente consideraremos más – aliás, é só de um evento mau não-evitado ou não-findado e que poderia sê-lo de que precisamos para refutar a onibenevolência do divino.


A réplica mais comum para essa questão é a de que “todo o mal existe para um bem maior”, uma tentativa de refutar a quarta premissa do paradoxo. Sendo assim, um término de namoro seria um mal que Deus permitiria com o intuito de fazer com que, por exemplo, os integrantes da relação amadurecessem; seria este o “bem maior”.


Em primeiro, contudo, é necessário levar em consideração que existem eventos ruins que não acarretam aspectos positivos o suficiente (o “bem maior”), que fazem valer a pena a existência de alguns tipos de mal. A existência do câncer, para dar um exemplo, foi um mal que Deus, em sua onipotência, poderia ter evitado. Não existe um “bem maior” por trás de todo o sofrimento que a existência desse mal causou. Digo, é evidente que a origem de um novo problema (ainda mais sendo biológico) sempre é causador de uma nova descoberta e, às vezes, de uma solução (nesse caso, cientifica). Mas isso não é um “bem maior”, é tão somente um aspecto positivo que não encobre o sofrimento de inúmeras pessoas: os indivíduos que já morreram de câncer e sofreram em detrimento da doença não vão receber a sua bonificação.


Em segundo, é preciso que se leve em consideração que, sendo Deus onipotente, poderia ele transformar o mundo de modo em que alcançássemos o bem sem sofrimentos – ou, sendo ele criador do mundo, poderia desde já criá-lo desse modo.


[...]


A contradição lógica, para alguns, estaria no fato de que o único modo de Deus fazer com que alcançássemos o bem sem sofrimentos seria retirando o nosso livre-arbítrio (só poderíamos optar pelo “bom caminho” e nunca pelo “mau caminho”), o que o tornaria não-onibenevolente. Todavia, esse é um argumento sem sentido, pois é exatamente o livre-arbítrio que nos daria a possibilidade de alcançar um “bem maior” sem sofrimentos; porque o que faz com que o ser humano não acabe com o mal ou o evite é a sua natureza, suas determinações (de ordem psíquica, biológica, social etc.) que existem no mundo presente. O ser humano não escolheu o mau caminho de forma livre e consciente – como proceder-se-ia de acordo com a fábula bíblica ou no argumento rousseauniano –, ele já está no mau caminho desde a sua origem.”


Do mesmo autor:

Elan Marinho - O Problema do Mal: de Epicuro a Agostinho


https://universoracionalista.org/o-problema-do-mal-de-epicuro-a-agostinho/

Nos nossos arquivos: docs.google.com


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Retornando aos trabalhos


1


Máximas


"Não vivas para que notem a tua presença, mas sim para que sintam a tua ausência" - HELIO  SINOWIETZ


Toda bondade realizada por desejo de recompensa ou maldade não realizada por medo de castigo é uma fraqueza de caráter. - Eu mesmo, até prova em contrário, ainda que inspirado em frase de Einstein




2


Observação sobre a lógica de criacionistas e outros pseudos


Crentinhos com sua lógica primária juram que em Filosofia (só se for na deles) e desta em Ciência quando não podemos afirmar alguma coisa por não termos evidências suficiente, cabe-se aí enfiar seu fantasmão providente.


Exemplos:


1) Jamais conseguiu-se evidenciar a formação de vida na natureza e em laboratório, "logo, foi deus".


2) Jamais evidenciou-se uma lagartixa virar um colibri (sic), logo, a lagartixa e o colibri, tal como são, “foram criados por deus”.


3) Jamais evidenciou-se vida fora da Terra, logo, similarmente a (1), foi deus quem a colocou aqui, e pasmemos, a Terra é como é para tal obra (de onde se conclui, alertemos, que a divindade é um pobre coitado que não pode criar vida noutras condições, e nem vida apta para outras condições, mas...).


A questão é que seria tal sempre uma "argumentação negativa", um tipo especial de non sequitur, como alerta Orr, "se não consigo provar que a Terra é esférica, concluo que ela é cônica".


Na verdade, o correto é dizer: não sabemos, e assim a questão se encerra.


No científico, até prova incontestável, para a origem da vida e na vida fora da Terra, por enquanto.


No quesito "evolução", a questão já está há muito encerrada, restando apenas esperneios patéticos de primatas crentes em milagres que não existem que pretendem ser mais do que são: simples vermes de simetria bilateral modificados (antes bactérias modificadas, posteriormente, peixes modificados, etc).


3


Citar Olavo de Carvalho é lei de Scopie.


Mas...


O argumento dele nesta frase é fraquíssimo pois pressupõe que a atuação de uma suposta divindade tenha de ser clara, evidente e inequívoca.


Mas esquece que possa ser imperceptível, sutil, exatamente pelos processo naturais tais como evidenciados e modelados pela Ciência, produzirem os desígnios daquela.


Assim, afirmar a ação incontestável da divindade não é afirmar mais que opinião pessoal, e um argumento teológico frágil, pois uma divindade que não possa produzir uma obra que funcione por si é um deus incapaz, o "artesão atrapalhado" de Collins.


Dizer que os fatos que evidenciamos na natureza não sejam os produtores de todas as coisas, colocar uma certa ação onde ela não é necessária, mesmo para crer-se numa divindade, que por sinal, não é justificável.


Olavo de Carvalho continua, em Filosofia, sendo um amador cujo único mérito (se é que é tal) é ter conseguido um séquito de fãs simplórios.



segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Epicuríadas - 1


(Epicuríadas: grosseiramente, lutas por Epicuro)

Abrindo uma série com anotações sobre os diversos debates que participo, apenas assisto e até “sofro” sobre o Paradoxo de Epicuro.

“Seria Deus desejoso de prevenir o mal mas incapaz? Portanto não é omnipotente. Seria ele capaz, mas sem desejo? Então é malévolo. Seria ele tanto capaz quanto desejoso? Então por que há o mal?” - Charles Bray, em “A Filosofia da Necessidade”, 1863, citando Epicuro como autor sem mencionar fontes.

Na forma que julgo mais sintética:



Deus quer prevenir o mal, mas não consegue?
Então ele não é onipotente.
Ele consegue, mas não quer?
Então ele é malevolente.
Ele quer e ele consegue?
Então por que o mal acontece?
Ele não quer e não consegue?
Então porque chamá-lo de Deus?

O problema do Mal

Nos típicos infográficos de cores berrantes de autores soltos pela internet:
Mas…

Não há texto escrito de Epicuro que estabeleça que ele realmente formulou o problema do mal dessa maneira, e é incerto que ele era o autor. Uma atribuição a ele pode ser encontrada em um texto datado de cerca de 600 anos depois, no tratado do teólogo cristão do século III de Lactâncio (Lactantius) sobre a Raiva de Deus, onde Lactâncio critica o argumento. O argumento de Epicuro, tal como apresentado por Lactâncio, na verdade, argumenta que um deus que é todo-poderoso e todo-bom não existe e que os deuses são distantes e não estão envolvidos com as preocupações do homem. Os deuses não são nossos amigos nem inimigos.

en.wikipedia.org - Problem of evil - Epicurus

Fiquemos com o texto do grande David Hume:

Epicurus’s old questions are yet unanswered. Is he willing to prevent evil, but not able? then is he impotent. Is he able, but not willing? then is he malevolent. Is he both able and willing? whence then is evil?

Em tradução nossa:

“As velhas perguntas de Epicuro ainda não foram respondidas. Ele está disposto a prevenir o mal, mas não é capaz? Então ele é impotente. Ele é capaz, mas tem não tem vontade? Então ele é malévolo. Ele é capaz e disposto? Por onde então está o mal?

en.wikipedia.org - Epicurus - Epicurean paradox

Algumas outras observações

FABIO GOULART; EPICURO: Sua Teologia, posição na história e uma crítica à sua Doutrina - www.filosofiahoje.com .

Nos nossos arquivos:

FABIO GOULART - EPICURO - Teologia posição na história e crítica à sua Doutrina - docs.google.com

Destaquemos:

“Epicurismo não significa ateísmo em stricto sensu. Epicuro era um antiteísta, pois fazia oposição à religião popular (os antigos deuses gregos) e a religião astral (são os signos do zodíaco que muita gente crê até hoje). Ao contrário das religiões da época, as divindades eram para Epicuro criaturas sem inveja, sem maldade, sem desejo, sem vinganças, etc. Ele também não acreditava em destino ou qualquer tipo de vontade divina; para este filósofo os deuses não se intrometem no mundo físico. Por fim, em seus textos às vezes ele fala em divindades (theoí) e em outras em Deus no singular (Theós), assim sendo não podemos afirmar que ele era monoteísta ou politeísta. Sua visão é muito mais próxima ao que hoje chamamos de Deísmo.“

Também:

Romero Venancio; EPICURO, MARX E A CRÍTICA DA RELIGIÃO: ALGUMAS NOTAS (EPICURE, MARX AND RELIGION’S CRITICISM: SOME NOTES); Religare 7 (1), 51-57, Março de 2010, 51; Universidade Federal de Sergipe – UFS - periodicos.ufpb.br  

Everton Rocha; MORTE VOLUNTÁRIA E IMORTALIDADE, DUAS FACES DO DESEJO EM TORNO DA MORTE NO PENSAMENTO DE EPICURO
; SABERES, Natal – RN, v. 1, n.4, jun 2010


Extras

Da felicidade

Ainda que com ressalvas das origens “Espíritas” texto a ser citado, vale a abertura e ainda mais guardar-se o texto:

“Epicuro está entre aqueles sábios pouco compreendidos ou mal interpretados. Ainda é comum encontrarmos quem confunda seu pensamento, de uma austeridade quase ascética, com o hedonismo puro e simples. O pensamento epicurista ensina uma modalidade de prazer que não se confunde com a disciplina masoquista.
Na concepção de Epicuro, a felicidade é decorrência do prazer; de um prazer que nasce da saúde do corpo e da serenidade do Espírito. Este estado de alma é atingido - segundo seus ensinos - pelo conhecimento e controle dos desejos, dentre outras posturas diante da vida.
A sua Carta sobre a felicidade, dirigida a um de seus mais fiéis discípulos, - uma das três que sintetizam sua doutrina - deixa bem clara a sua concepção de prazer, simultaneamente físico, intelectual, estético e espiritual.” - A felicidade é possível - Paulo R. Santos

Para uma cópia do artigo original: [ A felicidade é possível - Paulo R. Santos ]


Carta sobre a felicidade (a Meneceu)
Epicuro (341-270 a. C.)

"Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou, ou que já passou a hora de ser feliz.
Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la.

Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade.

Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses. Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria.

Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles.
Acostuma-te à idéia de que a morte para nós não é nada, visto que todo o bem e todo o mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.

Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aquele ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; viver não é um fardo e não-viver não é um mal.

Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve.
Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer. Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades.**

Se ele diz isso com plena convicção, por que não vai desta vida? Pois é livre para fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem.

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.

Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.

Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo, não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir.

É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro  e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha ou recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.

Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo.

Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem.

Consideramos ainda a auto-suficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil.

Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita.

Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte.

Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma.

Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos.

De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia ; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade.

Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas.

Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor?

Mais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses através das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável.

Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projeto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projeto mau.

Medita, pois, todas essas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais."


Téognis
**Da origem da frase marcada acima.
Teógnis de Mégara - es.wikipedia.org - Teognis

Téognis / Fragmentos - greciantiga.org

Fr. 1.27-30

Por ser teu amigo, ó Cirno, é que te vou dar estas normas, que eu mesmo,
sendo criança, aprendi com homens de bem.
Sê sensato, não busques honras, mérito, abastança,
em actos vergonhosos ou injustos.

Fr. 1.425-8

De todas as coisas, a melhor para os homens é não ter nascido
nem ter visto os raios do penetrante sol.
E, uma vez nascido, transpor depressa as portas do Hades
e jazer coberto com muita terra.

Fr. 1.615-6

Homem todo feito de virtude e de moderação,
não existe um só que o sol ilumine.


Contra tolas dores de metafísicas

Continuo “ao invés de me preocupar com metafisicas menores, preferindo a simples felicidade”*, por exemplo ficando com poema de Fernando Pessoa sobre o tema – Deus.


Deus

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro,
Dizendo-me Aqui estou!

(Isso é talvéz ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Como o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo ávores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como ávores e montes e flores e luar e sol.

Alberto Caeiro
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Ou ainda as estrofes:

[...]
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
[...]

Há Metafísica Bastante em não Pensar em Nada

*A frase normalmente é dita: “Preocupei-me com a metafísica até que encontrei a felicidade.”