segunda-feira, 16 de março de 2015

Algumas notas sobre religião - 2

2

Analisemos a frase:

“Após uma pessoa tornar-se descrente, jamais volta a crer.”

Ou, a similar:

“Uma pessoa que perde a fé, racionalmente, jamais volta a tê-la.”

Abordemos a questão pela possível senilidade ou incapacidade do cérebro, respectivamente, sua degradação no tempo e incidental, incontestáveis, sempre permeando nossos dias - e a fé.




Infelizmente, a mente que opera no substrato neural (cérebro) não é estável no tempo, pois o substrato não o é, como evidenciam basicamente moléstias como o mal de Alzheimer. Assim, o tecido cerebral, degenerando, conduz à degeneração da sua produzida racionalidade, e apercebamo-nos que inúmeros pensadores racionais, céticos, passam a partir de certo momento no tempo a serem crédulos fervorosos, ou mesmo em seu campo, como Filosofia ou Lógica, por exemplo, conduzirem-se em insustentáveis ou mesmo errôneas “demonstrações”, ou ainda por estapafúrdias evidências ou teorizações científicas, como em Física, e passam a sustentar seus “novos credos”.

Observação: Há casos que não se enquadram nisso, mas em outro tipo de afirmação pseudocientífica ou pseudofilosófica, que pode ser honesta (inocente) ou não, mas não trata-se da degeneração de uma razão, que é uma degeneração de capacidade ou senso crítico, como aqui tratamos. Um exemplo seria o “trabalho” premiado de Michael Heller pela Fundação Templeton, como pode ser visto em ‘Cientista prova a existência de Deus e ganha prêmio’ - noticias.gospelmais.com.br, ou em ‘O cientista de Deus - Através de leis da física e da filosofia, pesquisador polonês mostra que deus existe e ganha um dos mais cobiçados prêmios’ - www.istoe.com.br , ou ainda André Carvalho; Padre Cosmólogo “provou” que Deus existe; ceticismo.net., uma extremamente ácida crítica do prêmio e do premiado.

Somemos:

Simon Singh apresenta em “O Último Teorema de Fermat” que a idade máxima na qual um matemático produz grandes realizações encontra-se pelos 40 anos, com raríssimas exceções. O próprio livro a exceção apresentada é de Wiles, que demonstrou a corretamente chamada última conjectura de Fermat.

Mesmo entre os físicos teóricos o comportamento é similar, vejamos Einstein, de grandes realizações na fase mais jovem, e posteriormente, uma certa relutância em aceitar as afirmações da Mecânica Quântica, com uma produção relativamente mais baixa na maturidade em seu próprio campo.

Como exemplo de lógico poderoso que enveredou por exercícios de fé, podemos citar Gödel, em perigosos caminhos de Lógica, mesmo contra as implicações já conhecidas largamente ao seu tempo da Filosofia da Linguagem.

Recomendo: en.wikipedia.org - Gödel's ontological proof

A versão da Wikipédia em francês contém um bom criticismo, que é realizado especialmente sobre os axiomas.[Nota 1]

Citemos uma notícia de “nossos amigos”:

Antony Flew: a história do ateu mais influente do Século XX que se converteu através da ciência - noticias.gospelmais.com.br

Eu colocaria no mesmo “balaio” de pensadores com uma poderosa formação em seu campo, e que enveredou por perigosos caminhos, incluindo negação do naturalismo, com pretensões de “ter provado divindade criadora”, Alvin Plantinga, seguidamente distorcido por criacionistas quando afirmam que ele refuta a evolução biológica.

É filosoficamente interessante - como estudo do campo, não como solidez em argumento - seu ‘argumento evolucionário contra o naturalismo’.[Nota 2]

Notemos que certas mentes teístas, ainda que bastante capazes em certos períodos, podem manter sua fé até em momentos críticos, mesmo com incapacidade, como o caso de Faraday, religioso, mesmo sofrendo de forte depressão e com problemas de memória e linguísticos decorrentes da enfermidade, e nesse quadro lamentável, jamais traírem seu rigor científico.

Outros podem manter forte rigorismo científico, mesmo frente a poderosos paradigmas vingentes, e manter forte fé, como o caso de Eddington, em busca de comprovações observacionais para a Relatividade Geral, lutando contra o establishment científico inglês.

Então, a capacidade mental e religiosidade não são contraditórias com o rigorismo científico ou o ceticismo dentro de determinados limites, mas afirmamos aqui apenas a instabilidade de uma visão cética e descrente no tempo, devido à instabilidade da mente.


Ignorance more frequently begets confidence than does knowledge: it is those who know little, not those who know much, who so positively assert that this or that problem will never be solved by science.
“A ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento: são aqueles que sabem pouco, e não aqueles que sabem muito, que tão positivamente afirmam que esse ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência.” - Charles Darwin


Notas

1.

A demonstração de Gödel

( Devem haver algumas forças que efetivamente suprimem o que é bom. Pode-se facilmente descobrir de onde elas vêm. )


Definição 1 : x é como Deus, se e somente se x contém propriedades como essenciais todas as propriedades que são positivas.
Definição 2 : A é uma essência de x se e somente se para cada propriedade B, se x contém B por conseguinte A conduz necessariamente B.
Definição 3 : x existe necessariamente se e somente se cada essência de x é necessariamente exemplificada.
Axioma 1 : Qualquer propriedade causada por — isto é, unicamente implicando em — uma propriedade positiva é positiva.
Axioma 2 : Uma propriedade é positiva se e somente se sua negação não é positiva.
Axioma 3 : A propriedade de ser como Deus é positivo.
Axioma 4 : Se uma propriedade for positiva, então é necessariamente positiva.
Axioma 5 : A existência necessária é positiva.
Axioma 6 : Para toda propriedade P, se P é positiva, segue-se, necessariamente que P é positiva.
Teorema 1 : Se uma propriedade é positiva, segue-se que ela é consistente, isto é, possivelmente, exemplificada.
Teorema 2 : A propriedade de ser como Deus é consistente.
Teorema 3 : Se alguma coisa é como Deus, então a propriedade de ser como Deus é uma essência da coisa.
Teorema 4 : Necessariamente, a propriedade de ser como Deus é exemplificada.

Simbolicamente:



CodeCogsEqn.gif

Onde A significa, “A é possível”  e A, A é necessário”.

Em Latex:

\begin{array}{rl}
\mbox{Ax. 1.} & P(\varphi) \land \Box\; \forall x [\varphi(x) \rightarrow \psi(x)] \rightarrow P(\psi)\\

\mbox{Ax. 2.} & P(\neg \varphi) \iff \neg P(\varphi)\\

\mbox{Teor. 1.} & P(\varphi) \rightarrow \Diamond\; \exists x\; [\varphi(x)]\\

\mbox{Df. 1.} & G(x) \iff \forall \varphi[P(\varphi) \rightarrow \varphi(x)]\\

\mbox{Ax. 3.} & P(G)\\

\mbox{Teor. 2.} & \Diamond\; \exists x\; G(x)\\

\mbox{Df. 2.} & \varphi\;\operatorname{ess}\;x \iff \varphi(x) \land \forall\psi\lbrace\psi(x) \rightarrow \Box\; \forall x[\varphi(x) \rightarrow \psi(x)]\rbrace\\

\mbox{Ax. 4.} & P(\varphi) \rightarrow \Box\; P(\varphi)\\

\mbox{Teor. 3.} & G(x) \rightarrow G\;\operatorname{ess}\;x\\

\mbox{Df. 3.} & E(x) \iff \forall \varphi[\varphi\;\operatorname{ess}\;x \rightarrow \Box\; \exists x\; \varphi(x)]\\

\mbox{Ax. 5.} & P(E)\\

\mbox{Teor. 4.} & \Box\; \exists x\; G(x)
\end{array}


Kurt Gödel (1995). « Ontological Proof ». Collected Works: Unpublished Essays & Lectures, Volume III. pp. 403–404. Oxford University Press.ISBN 0-19-514722-7, - books.google.fr



Há várias razões pelas quais os axiomas Gödel podem não ser realistas, como segue:

Pode ser impossível satisfazer adequadamente o axioma 3, que pressupõe que uma combinação de propriedades positivas é uma propriedade positiva; para a evidência ser admissível, deve ser tomado o axioma de aplicar-se a coleções arbitrárias, não necessariamente finitas, de propriedades. Além disso, algumas propriedades positivas podem ser incompatíveis com outras. Por exemplo pena pode ser incompatível com a justiça. Neste caso, a combinação seria impossível uma propriedade e L (x) seria falso para cada x. Ted Drange fez essa objeção ao acordo para atribuir todas as propriedades positivas para Deus.

Por estas razões, este axioma tem sido substituído em alguns retrabalhos da prova (incluindo o trabalho de Anderson) pela assunção que G (x) é positivo (pos (G (x));
Sobel Jordan argumentou que os axiomas de Gödel são muito fortes: eles implicam que todos os mundos possíveis são idênticos. Descobriu-se que este resultado, considerando a propriedade "é tal que X é verdadeiro", onde X é qualquer declaração modal real sobre o mundo. Se g é um objeto divino, e X é de fato verdade, então g deve ter esta propriedade e deve, portanto, necessariamente, possuir. Mas então X é uma verdade necessária. Um argumento semelhante prova que todas as falsidades são falsidades necessárias. C. Anthony Anderson deu um sistema axiomático ligeiramente diferente que tenta evitar este problema.
No sistema de Anderson, axiomas 1, 2 e 5 acima permanecem inalterados; No entanto, outros axiomas são substituídos por:

Axioma 3: G (x) é positiva;
Axioma 4 ': Se uma propriedade for positivo, a sua negação não é positiva.
Estes axiomas deixam em aberto a possibilidade de que um objeto divino terá algumas propriedades não positivas, desde que essas propriedades sejam contingentes, em vez do que o necessário.

Note-se também que a definição ser como Deus (algo que contém todas as propriedades reais) não necessariamente define Deus, mas apenas um objeto que chamamos de bem, o que poderia ser chamado universo, tudo sem alterar a verdade ou provas.

Além disso, Gödel coloca como verdades improváveis os Axiomas 3 e 5, ou seja, sem condicional, ao contrário de axiomas 1, 2, 4 e 6. A partir desses dois axiomas, de modo semelhante aos dogmas, deriva o resto da manifestação.

No entanto, não se pode escrever abertamente e de forma incondicional que "a propriedade de ser como Deus é positivo" ⇔P (G), ou que "a existência necessária é positivo" ⇔P (E). P (G) e P (E) não pode ser verdade porque a propriedade a ser positivo (VE) é implicitamente sujeita a condições. Em outras palavras, "não é positivo que quer".

Se você quiser manter a lógica, teria sido mais justo escrever o axioma 3 como: "Propriedade de ser como Deus é positivo se for compatível, ou seja, exemplificado" (que é verdade), sendo consistente com o Teorema 1, Corolário 1 e Teorema 3.

Da mesma forma, o axioma 5 se torna verdade por escrito como "A existência necessária é positivo se for compatível, ou seja, exemplificada" (o que é verdade), então também ser coerente com a definição 3.

Em suma, Gödel possui, voluntariamente ou não, duas verdades autoproclamadas falsas (axiomas 3 e 5), não prováveis, não verificáveis e, o que é mais, sem condições, incluindo ambos os dogmas religiosos, e que habilmente deriva a sua demonstração de existência de Deus. Logicamente relacionada com proposições condicionais, axiomas se tornam realidade, mas o universal (incondicional) da prova é reduzido a nada.

2. O argumento evolucionário contra o naturalismo de Plantinga afirma que se a evolução ocorre, nossos sistemas de crenças não poderiam ser confiáveis.

O argumento é refutado de maneira bastante simples pela afirmação de que mesmo numa visão teísta do mundo, mesmo com uma visão de uma mente externa a um cérebro (“alma”), um res cogitans do dualismo, a percepção de que essa mente é instável e não plenamente confiável é clara. Noutras palavras: mesmo os mais crédulos sabem que o humano erra.
Mas exatamente aí que entra o conhecimento científico, que constrói confianças, não certezas, e portanto, um tratar os processos do mundo como naturais, metodologicamente, e não colocá-los como oriundos de ação sobre natural (demarcação de Popper) não é um naturalismo filosófico, e sim metodológico, e o raciocínio pode se estender do funcionamento das moléculas, das órbitas dos planetas e fusão nas estrelas, assim como para os seres vivos, que nos incluem, obviamente, e não pode-se dogmatizar que a divindade - existente ou não - tenha de atuar de maneira perceptível, ou ainda, em contradição com as leis naturais que ela mesmo tenha criado, mesmo para os complexos seres vivos, mesmo o homem e sua produção de conhecimento.

Percebamos também que o argumento é autocontraditório, pois se o naturalismo filosófico - ontológico e metafísico -  “é”, diferentemente do que tem de ser tratado em ciência, que é um naturalismo metodológico, ele próprio, o argumento de Plantinga, não pode ser afirmado como “confiável”. A questão pode ser resumida aqui num nível muito mais profundo, que é que sobre premissas, que sempre são duvidosa, no máximo confiáveis, não pode-se estabelecer raciocínios que sejam válidos, e tem-se de verificar qual a lógica adequada a cada questão, questões fundamentais da Filosofia da Linguagem.

en.wikipedia.org - Evolutionary argument against naturalism

Fazemos um tratamento mais completo do argumento em:

EAAN - Scientia - sites.google.com

Anexos

1

Pseudofilosofia

De en.wikipedia.org - Pseudophilosophy

De acordo com Christopher Heumann, um estudioso do século XVIII, pseudofilosofia tem seis características:

  1. A preferência pela especulação inútil.
  2. Apela apenas à autoridade humana.
  3. Apela para a tradição, em vez de ao raciocínio.
  4. Sincretiza filosofia com superstição (acrescentamos aqui misticismo).
  5. Tem uma preferência para a linguagem e simbolismo obscuro e enigmático.
  6. É imoral.

De acordo com Oakeshot, pseudofilosofia

... Teoriza o que procede parcialmente dentro e parcialmente fora de um determinado modo de investigação.

Pieper observa que não pode haver um sistema fechado de filosofia, e que qualquer filosofia que afirma ter descoberto uma "fórmula cósmica" é uma pseudo-filosofia. Nisso ele segue Kant, que rejeitou a postulação de um "princípio mais elevado" a partir do qual desenvolva-se idealismo transcendental, chamando isso de pseudofilosofia e misticismo.

Nicholas Rescher, em The Oxford Companion to Philosophy, descreve pseudofilosofia como

... Deliberações que se disfarçam de filosóficas, mas são ineptas, incompetentes, deficientes em seriedade intelectual e reflexivas de um compromisso insuficiente para a busca da verdade.

Rescher acrescenta que o termo é particularmente adequada quando aplicada a

... Aqueles que utilizam os recursos da razão para fundamentar a alegação de que a racionalidade é inatingível em matéria de investigação.

Observemos aqui que afirmações de uma “limitação da razão”, na capacidade do humano tratar as coisas e captar o mundo, tanto em intimidade quanto abrangência, enquandram-se em Filosofia sólida, a base da Epistemologia contemporânea, muito da Filosofia da Ciência, e não em algo que seja pseudofilosófico. É muito mais comum o texto filosófico sério afirmar “nada mais se pode afirmar”, enquanto o texto pseudofilosófico afirma “concluímos”, um saber insustentável.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Algumas notas sobre religião - 1


“Quando o primeiro malandro encontrou o primeiro otário surgiu a primeira religião.”
1



Façamo-nos uma pergunta:

Um religião ou religiosidade pode curar-nos?

Ou, noutras palavras: A fé cura?

Existem comprovações de relações anatômicas (contatos e trasmissões químicas) entre sistema nervoso e sistema imune. Hoje, existe até um campo a tal relacionado, a Psiconeuroimunologia, mas essa não será, especificamente, nossa discussão.[Nota 1]

Nossa pergunta deve concentrar-se primeiramente em: “havendo fé”, pode haver a ação de um ente (deus, óbvio), ou agentes desse ente (p.ex., como os santos, os anjos), e poderíamos fazer variações e composições para “deuses”, ou modificações nos comportamentos da natureza que propiciem a cura, seja no simples modificar-se de caminhos naturais já bem definidos (os benefícios propiciados pelo que é afirmado como “providência divina”) ou repentinos comportamentos anômalos no natural, de certa instantaneidade (os milagres, sejamos claros)?

Incluamos, aí, evidentemente, modificações fisiológicas, digamos, no indivíduo que tem fé, que o leve à cura, mas orientadas, propulsionadas, por esses entes sobrenaturais.
Percebamos que a fé providente não está atrelada inquebrantavelmente às religiões e religiosidades, e que poderia também ser a fé na providência pela ação de fadas ou gnomos, e acredito aqui não estar fazendo uma ridicularização simplória, pois as fés do mundo incluem até santos que quando invocados encontram chaves perdidas, e incluíram no passado deuses domésticos que resolviam até pequenas questões do dia-a-dia, de onde os atuais santos de pequenos milagres derivam.
A resposta ateísta, e mais que ateísta, cética para todos estes sub-questionamentos seria não, um direto e cristalino não, mas considerando-me no mínimo filosoficamente honesto, jamais o afirmaria com absoluta segurança. Mas exatamente como agnóstico que defino como “forte”, afirmaria que não deve-se contar com tais crenças, e numa confiabilidade altíssima nesse “não contar-se”.

Mas como iniciamos este texto, sabemos que a mudança no “estado de espírito”, a motivação, uma certa “alegria”, propicia mecanismos de cura - ou melhor ainda, de enfrentamento potencial de uma moléstia. No caminho contrário, parece-me óbvio que tristeza e depressão pioram qualquer caso infeccioso, só para termos um contra-exemplo trivial.

"Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem." (Hebreus 11:1)

A questão agora seria de que a fé seria um mecanismo maior - e melhor - a ser usado para se alcançar tal intento.

Novamente, vemos que as afirmações religiosas não são propriamente o que se poderia definir como algo confiável, pois tanto que tem-se de ter o que seja fé. Repousa a fé na suposição do existir este algo que foi acima listado como “ato”.

Não conseguimos sair da conjectura filosófica, do terreno das possibilidades. Alerto que a fé na remoção por uma intervenção sobrenatural de uma pedra sobre seu corpo é imensamente menos eficiente que fazer-se esforços para removê-la. Noutras palavras, o ato real, físico, tem sempre mais possibilidade de sucesso que a esperança no transcendente ao natural.

A fé serve de consolo, manifestada na esperança providente, por exemplo, mas parece-me que por estar envolvida no máximo com possibilidades, também pode gerar a decepção, e os efeitos que estamos alegando que ela possa possuir, transformam-se exatamente em seu inverso. Mas a fé tem um substituto claro: a Filosofia, que até permite a fé como saída comportamental, pois liberdade  - embora claramente não racional, pois evidentemente, apenas fé.

A Filosofia consola, já o mostrava os clássicos e posteriormente, destacadamente Boécio.[Nota 2] Propicia o entendimento do mundo, incluindo suas abundantes mazelas, sua aceitação, a aceitação da tragédia, o aceitar o findar seja do que for, como da riqueza, da saúde, do vigor e por fim, inexoravelmente, da própria vida.

Então podemos concluir que o bem-estar “espiritual” não necessita ser aquele único pensado no humano.

Acrescentemos que a fé demanda tempo, e como esse me parece inexorável na vida, os atos de fé, os rituais, a própria estagnação do pensar que essa produz - pois a fé parece-me ensinar apenas a própria fé e seus ritos, jamais outra coisa de verdadeira utilidade na vida humana -sendo nisso completamente oposta à Filosofia, cuja História mostra que levou inclusive ao entendimento do mundo na Ciência - filha da “Filosofia Natural”, e o tratar do humano em si mesmo, a Psicologia, no seu conjunto, a Sociologia, nas relações dos grupos e interesses, a Política, e na sua geração e distribuição de riqueza, Economia. A fé tem sido mãe de muitas das brutalidades do mundo, mas a Filosofia, embora muitas vezes distorcida, é mãe certa de muitas das maiores conquistas dos homens.

Se pudesse fazer uma imagem simples, a fé é a erosão dos espíritos, muito mais que sua construção, e a Filosofia o alicerce dos mais fortes.




Citemos:

O sistema imunológico e sistema nervoso
Há evidências de que o sistema imunológico e o sistema nervoso estão ligadas de várias maneiras. Uma ligação bem conhecida envolve as glândulas supra-renais. Em resposta a mensagens de estresse do cérebro, as glândulas supra-renais liberam hormônios no sangue. Além de ajudar uma pessoa a responder a emergências, mobilizando as reservas de energia do corpo, estes "hormônios do estresse" podem sufocar os efeitos protetores de anticorpos e linfócitos.

Outra ligação entre o sistema imunológico e o sistema nervoso é que os hormônios e outras substâncias que transmitem mensagens entre células nervosas também "falam" para as células do sistema imunológico. De fato, algumas células imunes são capazes de fabricar produtos típicos das células nervosas, e algumas linfocinas podem transmitir informações para o sistema nervoso. Além disso, o cérebro pode enviar mensagens diretamente para as células nervosas do sistema imunológico. As redes de fibras nervosas têm sido utilizadas para ligar os órgãos linfóides.

Immune System - www.niaid.nih.gov

Ou:
Dr. G. F. Solomon; Psychoneuroimmunology: Interactions between central nervous system and immune system; Journal of Neuroscience Research, Volume 18, Issue 1, pages 1–9, 1987. -

Resumo

Psiconeuroimunologia, um campo em rápido desenvolvimento, relaciona-se com as interações complexas bidirecionais entre o sistema nervoso central e o sistema imunitário. Influências neuroendócrinas modulam a função imune, e a informação de retorno do sistema imunitário para o cérebro. Interação do SNC (sistema nervoso central) imunitário parece desempenhar um papel na influência sobre resistência à doenças mediadas imunologicamente e psicossociais. Com a crescente evidência agora na mão, mais de 30 "postulados" pode ser propostos para a implicação específico de interação SNC-imune.

A comunicação em duas direções ocorre entre o sistema nervoso entérico e o sistema imunitário do trato gastrointestinal, isto é, transmissores libertados pelos terminais de neurônios entéricos nas células imuno-relacionados influência da mucosa, tais como mastócitos, e as células da mucosa libertar substâncias ativas, incluindo citocinas e a triptase de células mastro, que atuam sobre os neurónios entéricos (de Giorgio et al 2004; Lomax et al 2006). A inter-comunicação que ocorre em distúrbios, tais como a doença de Crohn e colite ulcerativa são complexas, e para além do âmbito desta revisão curta. - www.scholarpedia.org - Enteric nervous system

Mauricio Rosas-Ballina, Kevin J. Tracey; The Neurology of the Immune System: Neural Reflexes Regulate Immunity; Open Archive - DOI: dx.doi.org - j.neuron.2009.09.039 - www.cell.com

Resumo
Avanços paralelos na neurociência e imunologia estabeleceram a base anatômica e celular para interações bidirecionais entre os sistemas nervoso e imunológico. Como outros sistemas fisiológicos, o sistema imunológico e o desenvolvimento de imunidade é modulado por meio de reflexos neurais. Um exemplo prototípico é o reflexo inflamatório, constituído por um braço aferente que detecta a inflamação e um braço eferente, da via anti-inflamatória colinérgica, que inibe as respostas imunitárias inatas. Este mecanismo é dependente da subunidade α7 do receptor de acetilcolina nicotínico, que inibe o NF-kB, suprime a translocação nuclear e libertação de citocina por monócitos e macrófagos. Aqui vamos resumir evidências mostrando que a imunidade inata é reflexiva. Os avanços futuros virão da aplicação de uma abordagem integrativa fisiologia que utiliza métodos adaptados de neurociência e imunologia.


Mais leitura recomendada:

R. Ader, N. Cohen, D. Felten; Psychoneuroimmunology: interactions between the nervous system and the immune system; The Lancet, Volume 345, Issue 8942, Pages 99 - 103, 14 January 1995. - www.sciencedirect.com


The Immune System and the Nervous System - thyroid.about.com


Glaucie Jussilane Alves, João Palermo-Neto; Neuroimunomodulação: sobre o diálogo entre os
sistemas nervoso e imune; Rev Bras Psiquiatr. 2007;29(4):363-9. - www.scielo.br

GINA KOLATA; NERVE CELLS TIED TO IMMUNE SYSTEM; Published: May 13, 1993 -

Andrea Marques-Deak and Esther Sternberg; Psiconeuroimunologia – A relação entre o sistema nervoso central e o sistema imunológico; Rev. Bras. Psiquiatr. vol.26 no.3 São Paulo Sept. 2004 - www.scielo.br

E. Weihe, D. Nohr, S. Michel, S. Müller, H. J. Zentel, T. Fink, and J. Krekel; Molecular anatomy of the neuro-immune connection; International Journal of Neuroscience, 1991, Vol. 59, No. 1-3 , Pages 1-23 - informahealthcare.com

David B. Beaton; Effects of Stress and Psychological Disorders on the Immune System - www.personalityresearch.org

Method for modulating the enteric nervous system to treat a disorder - WO 2013082587 A1 - www.google.com - Patents
Wouter J. de Jonge; Review Article - The Gut’s Little Brain in Control of Intestinal Immunity; ISRN Gastroenterology, Volume 2013 (2013), Article ID 630159, 17 pages - dx.doi.org - 10.1155/2013/630159 - www.hindawi.com

Kenney MJ, Ganta CK.; Autonomic nervous system and immune system interactions.; Compr Physiol. 2014 Jul;4(3):1177-200. doi: 10.1002/cphy.c130051. - www.ncbi.nlm.nih.gov

2. Sobre o papel da Filosofia no que seja “consolar”:

O clássico:

A Consolação da Filosofia - Boécio - pt.wikipedia.org

O recente:
Alain de Botton; As consolações da filosofia - books.google.com.br

Resenha:
“As consolações da filosofia' o autor apresenta exemplos de consolação a partir das ideias de seis filósofos - Sócrates, Epicuro, Sêneca, Montaigne, Schopenhauer e Nietzsche -, para a impopularidade, para a insuficiência de dinheiro, frustração, inadequação, coração partido e dificuldades. O seu estilo é bem-humorado, às vezes, confessional, com capítulos curtos e muitas ilustrações.” - www.scholarpedia.org


Anexos

Diria, pitorescos:

1


gepazebem.blogspot.com.br

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3


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Teológicos Egos


(E de uma incomensurabilidade proporcional ao fantasmão providente em que se acredita)


1

A “divina inspiração” e uma dúvida que me atormenta



Todos assistiram ao processo por que passou a Igreja Católica com a renúncia do papa e posteriormente, com a eleição seu novo líder.

Tenho de concordar cada vez mais com o entrevistador e humorista Bill Maher, de que uma das coisas que mais caracteriza as religiões, especialmente às ocidentais, é o ego (o Das Ich freudiano).

Acompanhei até por um vício em rádios de notícias as inúmeras entrevistas de “críticos literários de um livro só”... desculpem, teólogos, cientistas bíblicos (?) e sacerdotes pingados tomados para emitir opiniões sobre o processo eleitoral que é a escolha da grande e idosíssima empresa.

Claro que apareceram os “poderes cósmicos” fenomenais que quem atribui a ação divina (novamente interrogação) na escolha do dirigente da poderosa e multinacional organização. A eleição, lembremos, é, termos no jargão próprio, “inspirada pelo espírito santo”.

Lembrando os espíritas, lembremos que se um “espírito muito evoluído” já é um orientador poderoso, mesmo errando crassamente para o poderoso Kardec até nos satélites de Marte e em conceitos vitorianos completamente errôneos de evolução humana, imaginemos o poder, a capacidade do espírito que é uma das partes da divindade que é UNA (sic ou confusão mesmo?).

Sendo tão poderosa a orientação, e tão graduados os sacerdotes em questão, é impressionante como podem não se decidir de imediato, como dizem os castelhanos, por ironia, “de pronto”, e como podem ter, inclusive, posições não unânimes.

Esqueçamos por hora que poderia haver uma “ação politeísta”, e como o Catolicismo prima por ter seres intermediários em capacidades - até tendo ditos santos como Longino / Longuinho para achar nossas perdidas chaves - tal dúvida deve ficar em suspenso.

Com tais dúvidas sobre a capacidade de comunicação com o fantasmão rancoroso e vingativo que depois passou a ser pai de si mesmo e ter uma estranha atração por adolescentes judias, quando no passado propiciava gestações milagrosas em senhora hebreias, após a escolha do CEO me vem uma importante pergunta, motora deste texto:

- Se não se pode confiar na inspiração berrada como divina dos mais graduados sacerdotes desta fé, como poderia confiar no padreco um tanto desqualificado da igreja católica da esquina?


Os casos de pedofilia deixaria de lado, enquanto espero a resposta

2


Sobre uma exagerada louça




Logo após a renúncia do grande teólogo católico elevado a papa, que em paradoxo, declarou-se “cansadinho”, envergonhando certamente os milhares de cristão que foram torturados, devorados por leões e cães, crucificados, etc, honestos e determinados em sua fé, assisti uma reportagem que chamaria “deslumbrada”, mostrando uma sala do Vaticano com a coleção dos cálices usados pelos papas em suas missas.

Notemos que esta sala não é aberta à visitação, logo, não gera receita.

Como bem se aprende em Indiana Jones e a Última Cruzada, o cálice que certamente Jesus - entendamos, usando a teologia cristã, o próprio Deus - usou deve ter sido o cálice de um carpinteiro, ou um de cerãmica de seus amigos publicanos e comerciantes relativamente ricos.

Esqueçamos que defendo, até por formação em questões ambientais o que chamo de “necessialismo” - a posse apenas dos ítens que necessitamos usar, mais obviamente ainda em utensílios de cozinha, por exemplo.

Não parece pouco coerente a acumulação de riquezas por quem prega a humildade e as “graças” da pobreza?

Há quem defenda que o Vaticano vender todos seus tesouros não resolveria problema algum dos pobres, o que claramente já me parece uma aplicação do paradoxo sorites como falácia.

Eu já respondo a isso que ainda que resolvesse o problema de uma única criança pobre, com uma mínima quantidade de comida numa única refeição, já teria sido feita alguma coisa.

Aliás, eu poderia, aos moldes do santo que agora inspira o nome do novo CEO da grande organização, que me parece tão confusa em seus fins e meios, citar aos cardeais e ao papa certo rabino da judeia, de poucos dias e morto com muitas dores sob o Império Romano, de quem são clara continuidade, de palavras simples até para um campesino, para evitar-lhes o certo e inexorável abandono, a medida que todos perceberem, por mais tolos que sejam, sua enorme incoerência:


Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam;  Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.  Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. [...] Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? [...] Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;  E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.